
Anselmo Crespo
subdirector
Artigos publicados


Os quatro grandes desafios da nação
Dificilmente encontraremos na história uma oportunidade tão boa para olharmos para o passado, para o presente, mas, sobretudo, para o futuro. Foi uma pandemia, podia ter sido outra coisa qualquer, mas se há, no momento que vivemos, alguma lição cósmica é a de que não podemos continuar a ser o que somos. E, para isso, precisamos de vencer, pelo menos, cinco grandes desafios.

Ai aguenta, aguenta
À morte ninguém escapa,
Nem o rei, nem o papa,
Mas escapo eu.
Compro uma panela,
Custa-me um vintém,
Meto-me dentro dela
E tapo-me muito bem,
Então a morte passa e diz:
Truz, truz! Quem está ali?
Aqui, aqui não está ninguém.
Adeus meus senhores, passem muito bem.

Marcelo, a pandemia e as presidenciais
O vírus que nos mudou a vida há de mudar também muita coisa na política. Cá dentro e lá fora. Trump tem a reeleição em risco. Bolsonaro, a continuar assim, pode nem sequer chegar às próximas eleições. No Reino Unido, Boris Johnson vai-se aguentando por falta de comparência do adversário. E em França - só para dar alguns exemplos - Macron não precisou propriamente da pandemia para se estampar de frente contra uma parede, mas lá que levou um valente empurrão, isso levou.

Não nos TAPem os olhos
A minha primeira grande viagem de trabalho foi ao Brasil, pela TAP e por causa da TAP. A companhia aérea - à época gerida por Fernando Pinto - falhara a compra da brasileira Varig, mas tinha conseguido adquirir a VEM (Varig Engenharia e Manutenção), com oficinas em Porto Alegre e no Rio de Janeiro. Apesar de altamente deficitária, a confiança da administração da TAP na recuperação da VEM era enorme. E o orgulho nesta "conquista" era claramente desmesurado, como se viria a confirmar mais tarde.

Perder o medo e perder a mão
Numa rápida ida ao mercado para comprar peixe, um casal de idosos - de máscara, mas com o nariz de fora - demorou a aperceber-se da minha dança. À espera de vez, fui-me afastando para a direita ou para a esquerda, a cada aproximação, tentando manter a distância de segurança. Ao fim de uns minutos, quando a senhora finalmente se apercebe das minhas movimentações, diz, perentória: "Isto agora já não há nada, já passou tudo!"

Um país que lida mal com o mérito
Critiquei várias vezes Mário Centeno. Discordei dele outras tantas e cheguei mesmo a questionar-lhe o caráter, a propósito da polémica com António Domingues, na Caixa Geral de Depósitos. Nem sempre geriu bem politicamente e a forma como sai do Governo, numa altura de crise, é disso exemplo. Mas isso não o torna inviável como Governador. Torna-o humano.

O país do "desenrasca aí"
Numa entrevista recente à TSF, António Costa Silva foi certeiro na definição do povo português: "Absolutamente extraordinário nas crises e medíocre no regresso à normalidade". É o retrato perfeito da forma como está a decorrer este desconfinamento em plena pandemia - com milhares de pessoas na rua, de máscara no pescoço a amontoarem-se nos cafés, como se nada se estivesse a passar -, mas é também a melhor metáfora para a forma como nas últimas décadas o país foi respondendo às crises que foram aparecendo.

Nem branco, nem preto, nem cigano
Catalogar - e julgar em função disso - a humanidade é próprio dos ignorantes. Entre brancos e pretos. Entre ciganos e "pessoas normais". Entre gays e heterossexuais. É uma simplificação básica e primária, como se o ser humano pudesse ser resumido a um rótulo que não escolheu, mas que o define para todo o sempre.
