Rodrigo Tavares

Rodrigo Tavares

Deveremos reivindicar os bens saqueados pelos franceses?

Disse o rececionista do hotel, no fim de semana passado, que parte do espólio do Convento do Espinheiro, nos arredores de Évora, foi saqueado pelos generais franceses Junot e Soult e encontra-se em museus em França e Nova York. Estas estórias, que retratam a desumanidade das invasões francesas ocorridas entre 1807 e 1811, fazem parte do património oral de transmontanos, beirões e alentejanos. Ouro e arte foram extirpados abrutadamente de conventos, castelos e palácios, deixando um rasto de desterro identitário, de míngua financeira e de cólera muda.

Rodrigo Tavares

A guerra colonial ainda não acabou

A crença de que Portugal é um país seguro e pacífico tem inibido o debate sobre as vísceras bélicas do nosso passado recente. Entre 1961 e 1975, cerca de 1 milhão de jovens portugueses lutou na guerra colonial e, para a vasta maioria, foi a experiência individual mais avassaladora das suas vidas. Depois disso houve casamentos, filhos e netos, conquistas profissionais e outros momentos marcantes, mas os anos da guerra em África foram o ferrete mais quente.

Rodrigo Tavares

Que estátuas erguidas hoje derrubaremos daqui a cem anos?

Qualquer ação humana, dos gestos mais heroicos aos trejeitos mais terrestres, só pode ser entendida se inserida num código cultural específico. É por intermédio dessa compilação de normas, leis e valores que estabelecemos a motivação, que procedemos à execução e que julgamos a consequência. Esses filtros são sensíveis à geografia e principalmente ao tempo. Em constante transformação, mesmo que lenta, são o resultado do embate de diversas forças presentes em cada sociedade.

Rodrigo Tavares

Quarentena Permanente para Comentadores de Futebol

Com o regresso do futebol aos estádios regressam também os comentadores às televisões. Os segundos precisam dos primeiros, mas os primeiros não precisam dos segundos. E nós também não. Cada um dos 90 minutos do jogo traduzir-se-á em dezenas de horas de comentários, em todos os canais de TV, na rádio, nos jornais. Portugal tem mais jornais diários de futebol do que o Brasil (a pátria de chuteiras), mais programas televisivos de futebol do que a Itália (onde se praticava o harpastum, um dos precursores do futebol) e mais comentadores de futebol do que o Reino Unido (que tem o campeonato nacional mais rentável financeiramente).

Rodrigo Tavares

III. Os efeitos da Covid-19 nas cidades

No dia 29 de setembro de 1918, no auge da segunda vaga de Gripe Espanhola, a Direção Geral de Saúde anunciou seis medidas para combater a pandemia. Três delas estavam direcionadas ao poder local - organizou a assistência clínica em torno dos "médicos municipais" (medida 4), dividiu os concelhos em "zonas médicas e farmacêuticas" (medida 5) e ordenou que as câmaras municipais criassem "comissões de socorro" (medida 6). O efémero governo nacional de Sidónio Pais precisava das cidades para combater a doença, ainda que, na altura, apenas 20% da população vivesse em áreas urbanas.

Rodrigo Tavares

Sobre a Covid-19 e o fim da privacidade

Dizem os constitucionalistas que as magnas cartas de cada país são um orifício através do qual é possível espiar a cultura de uma nação. Falemos então de privacidade. A Constituição brasileira afirma que "a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas" são invioláveis. A de Singapura negligencia o tema. A de Portugal sublinha a importância da "privacidade familiar." Na maioria dos países ocidentais, a privacidade foi elevada a um direito fundamental, consignado na Declaração Universal dos Direitos Humanos. O eu, murou-se contra todo o tipo de ameaças externas ao individualismo.