
Rodrigo Tavares
Artigos publicados


A guerra colonial ainda não acabou
A crença de que Portugal é um país seguro e pacífico tem inibido o debate sobre as vísceras bélicas do nosso passado recente. Entre 1961 e 1975, cerca de 1 milhão de jovens portugueses lutou na guerra colonial e, para a vasta maioria, foi a experiência individual mais avassaladora das suas vidas. Depois disso houve casamentos, filhos e netos, conquistas profissionais e outros momentos marcantes, mas os anos da guerra em África foram o ferrete mais quente.

Como a política usa a Comunicação Social (e vice-versa)
Fui fazer contas. A Folha de São Paulo tem 191 colunistas e blogueiros fixos, nas edições online e impressa. Desses, apenas três são políticos no ativo ou associáveis a partidos políticos: a deputada Tabata Amaral, o ex-presidente da Câmara de São Paulo Fernando Haddad e o ex-ministro das Finanças Nelson Barbosa. Ou seja, 1,6%.

Para que serve a Universidade?
Ao chegar a meio da vida profissional, muitas pessoas não se lembram do que aprenderam na universidade. Foram anos de inoculação unilateral de conhecimento e de avaliações que testaram a memória avermelhada pelo excesso de uso. Para muitos, a universidade é apenas uma fase compulsória de legitimação social para o trabalho.

A influência positiva do mercado financeiro
Se a relação entre o Estado e a sociedade é estridente e alimenta todo o tipo de ideologias políticas, a relação entre o Estado e o mercado de capitais é silenciosa. E é esta mudez, este vazio de debate, que propicia o ceticismo e a dubiedade. Precisamos de mais clareza sobre a influência do mercado financeiro nas nossas vidas.

Que estátuas erguidas hoje derrubaremos daqui a cem anos?
Qualquer ação humana, dos gestos mais heroicos aos trejeitos mais terrestres, só pode ser entendida se inserida num código cultural específico. É por intermédio dessa compilação de normas, leis e valores que estabelecemos a motivação, que procedemos à execução e que julgamos a consequência. Esses filtros são sensíveis à geografia e principalmente ao tempo. Em constante transformação, mesmo que lenta, são o resultado do embate de diversas forças presentes em cada sociedade.

Quem serão os futuros líderes do Brasil?
Quando se endireitam na cadeira para falar sobre as pústulas brasileiras, escorre alguma sobranceria na forma como os portugueses olham para os líderes brasileiros. Um escárnio contido. Um doutismo de aulas à distância. Um orgulho ainda ferido.

Quarentena Permanente para Comentadores de Futebol
Com o regresso do futebol aos estádios regressam também os comentadores às televisões. Os segundos precisam dos primeiros, mas os primeiros não precisam dos segundos. E nós também não. Cada um dos 90 minutos do jogo traduzir-se-á em dezenas de horas de comentários, em todos os canais de TV, na rádio, nos jornais. Portugal tem mais jornais diários de futebol do que o Brasil (a pátria de chuteiras), mais programas televisivos de futebol do que a Itália (onde se praticava o harpastum, um dos precursores do futebol) e mais comentadores de futebol do que o Reino Unido (que tem o campeonato nacional mais rentável financeiramente).

III. Os efeitos da Covid-19 nas cidades
No dia 29 de setembro de 1918, no auge da segunda vaga de Gripe Espanhola, a Direção Geral de Saúde anunciou seis medidas para combater a pandemia. Três delas estavam direcionadas ao poder local - organizou a assistência clínica em torno dos "médicos municipais" (medida 4), dividiu os concelhos em "zonas médicas e farmacêuticas" (medida 5) e ordenou que as câmaras municipais criassem "comissões de socorro" (medida 6). O efémero governo nacional de Sidónio Pais precisava das cidades para combater a doença, ainda que, na altura, apenas 20% da população vivesse em áreas urbanas.
