JJ. O homem será a força do trabalho e das suas crenças!

Irreverente... metódico...ambicioso... mas igualmente desbocado, capaz de uma tirada absolutamente surpreendente que a todos deixará desconcertados e simultaneamente dono de um coração do tamanho do mundo!Jorge Fernando Pinheiro de Jesus, o JJ, poderá ser definido, grosso modo, assim.

Um homem que, no tempo dos técnicos diplomados, com curso superior, subiu a pulso, fazendo as suas virtudes prevalecer sobre as suas debilidades.

Tendo sido um futebolista modesto, de onde se poderão destacar as passagens pelos juniores do Sporting, bem como as temporadas vividas nos seniores da Riopele e da Olhanense, o filho de Virgolino - suplente dos míticos Cinco Violinos - seria enfeitiçado pelo treino... pelas tácticas, algo que posteriormente viria a fazer com que se auto-intitulasse de "Mestre da Táctica."

Mas, ao contrário de alguns, que começam pelo topo e são patrocinados por empresários que lhes abriram todas as portas, Jesus teve de começar por baixo! A história é deliciosa e merecerá umas linhas. O então jogador representava o Almancilense do Algarve, que iria receber em casa o Amora. Após um prélio arduamente disputado, o presidente dos homens da Medideira arriscou! Fascinado pelo conhecimento táctico e capacidade de liderança daquele médio de farta cabeleira, não hesitou: convidou-o para treinador da sua equipa! Uma aposta que se viria a revelar a mais certeira da vida de Mário Rui, que abriu as portas do balneário a um homem que haveria de tocar o Olimpo dos treinadores.

A partir daí seria o início de uma bela história, em que o êxito e a idolatria andaram de mãos dadas com as críticas e a incompreensão. Falamos, pois, de um curioso binómio nos clubes por onde passou o técnico. Para o amarem e admirarem existiu um igual número que não o suportava, inclusivamente técnicos como Augusto Inácio, que, despeitado pelos comentários que este fez quando o substituiu no Felgueiras, prometeu não mais olhar para ele do mesmo modo.

E já que falamos do Felgueiras, aludimos ao primeiro contacto de JJ com o mundo dos grandes jogos, dos grandes clubes. Depois de abandonar a Amora, apostou no Norte do país. Felgueiras, na altura a viver o apogeu do calçado, recebeu-o de braços abertos. Seria o local em que os adeptos de futebol perceberiam a filosofia de Jesus, segundo o próprio, de cariz, declaradamente, Cruyjffiana. Para isso, muito ajudou o estágio que fez em Barcelona e que levou a que o seu Felgueiras subisse, imediatamente, ao primeiro escalão e aí durante metade da temporada fosse uma sensação. Nomes como Sérgio Conceição, João Costa, Lewis e Latapy fizeram miséria, até a equipa estourar como um balão... acabaria por ser despromovida e o treinador abandonar o barco sob um forte coro de críticas por não ter sabido estancar a derrocada.

Durante este período, merece ser realçada a parte humana do homem, que todos os dias, ou quase, se deslocava à Amadora para levar injecções à sua mãe doente. Beneficiando da amizade do médico do clube, conseguia os fármacos, o que o fazia depois empreender maratonas nocturnas do Norte do país aos arrabaldes da capital para amparar a sua progenitora.

Após Felgueiras, o caminho far-se-ia de avanços e recuos... de esperança e de desilusões... de subidas de divisão como sucedeu com o Vitória FC em 2000/01, ou descidas com o Moreirense em 2004/05.

A temporada de 2005/06 marcará, indelevelmente, a carreira do treinador. Assina pelo União de Leiria e realiza uma temporada de nível acima da média. Com um conjunto composto por nomes como Harison, Jaime Junior ou Maciel, o futebol dos homens da Cidade Lis era dos melhores do país. Vencer a equipa que actuava no Magalhães Pessoa era um Cabo das Tormentas, atento as armadilhas tácticas montadas. Terminaria a temporada no sétimo lugar para rumar ao Belenenses, onde faria das melhores épocas dos últimos anos dos azuis, ainda, do Restelo. Assim, um quinto posto com direito a, também, disputar uma final da Taça de Portugal frente ao Sporting, e um oitavo na temporada subsequente permitiram ao técnico dar um passo em frente, rumo a Braga onde só estaria uma temporada, para cumprir o sonho da sua carreira: treinar um candidato ao título, o Benfica!

Os encarnados que já não eram vencedores do título nacional, desde que a manhosice da raposa Trapattoni ditou leis, nesse ano de 2009/10 foram inebriantes. Arrasadores. Jogaram do melhor futebol que se viu por esse mundo fora! Foram campeões e o treinador cumpria o seu sonho.

Ficaria seis épocas de águia ao peito... combinando títulos e desilusões! Três campeonatos nacionais, mas também derrotas surpreendentes como a manita do Dragão! Alegrias como ter chegado a duas finais da Liga Europa e dores por perder uma delas no último minuto (frente ao Chelsea) e outra no desempate pelo pontapé das grandes penalidades (frente ao Sevilha), ou uma Liga no minuto 92 graças ao pontapé de Kelvin! Momentos de verdadeira idolatria dos adeptos e momentos de raiva dos mesmos e inclusivamente dos jogadores, como sucedeu naquele 26 de Maio de 2013, quando após perder a final da Taça de Portugal, frente ao Vitória SC, Óscar Cardozo o empurrou para todo o país ver!

Mas, sairia do Benfica como um vencedor... para cumprir o sonho de seu pai, que enfermo de Alzheimer, não pôde sentir a alegria de treinar o seu clube do coração: o Sporting.

Com Bruno de Carvalho a presidente, o sonho era devolver o título a Alvalade. Na primeira época, falharia por pouco. Os fantásticos 86 pontos efectuados foram, contudo, insuficientes para bater um Benfica que começou a época titubeante, para a acabar como campeão. Porém, o amargo de boca estará sempre nas duas bolas de baliza aberta falhadas por Bryan Ruiz e que teriam permitido aos leões sagrarem-se campeões... falamos da cabeçada em Guimarães e do "encosto" em Alvalade, no jogo do título, frente ao rival directo!

Na época seguinte, talvez, a maior desilusão da sua carreira... a maior dor, maior que um qualquer golo de Kelvin! Uma época em que todos os objectivos foram falhados e que, no final da mesma, Alcochete entrou para a história. O técnico foi maltratado, agredido e... despedido! Saía do clube do seu coração apenas com uma Supertaça Cândido Oliveira e uma Taça da Liga e muitos a augurarem-lhe o fim da carreira.

Teria de rumar a Arábia para se reencontrar... as suas entrevistas na hora da partida demonstraram a angústia de um homem por abandonar o seu país... o drama do emigrante que, apesar do dinheiro, leva a saudade no coração!

Apesar do êxito, estaria lá pouco tempo... resolveria o contrato e ficaria à espera do futuro!

Seria o Flamengo, o clube com mais adeptos do Brasil! Aí, se os primeiros olhares foram de desconfiança, até de escárnio, rapidamente se tornaria uma das figuras mais amadas da história do emblema carioca! Com o seu futebol, que segundo ele diz foi inventado por si, revolucionou as mentalidades do país irmão, chegando mesmo a ser cogitado para seleccionador do escrete! Melhor do que isso: desatou a ganhar como se não houvesse amanhã, tendo logrado o Brasileirão, a Copa Libertadores que o clube durante 38 anos sonhou voltar a vencer, a Supertaça Brasileira, a Copa Guanabara e, ainda na transacta semana, a Recopa Sul-Americana, equivalente à nossa Supertaça Europeia.

Jesus, hoje, é um ídolo no Brasil e será finalmente consensual em Portugal... o homem será sempre a força do seu trabalho e das suas crenças!

Vasco André Rodrigues (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

*Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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