Magia negra num campo de futebol

Se perguntarem a um adepto do futebol nascido no final da década de 70 e início dos anos 80, qual o primeiro jogador africano do qual têm memória, talvez a maior parte responda Roger Milla.

Albert Roger Milla nasceu a 20 de Maio de 1952 em Yaoundé, capital dos Camarões, no entanto nasceu para o futebol em Douala, a maior cidade e capital económica daquele país localizado a ocidente da África Central. Depois de ter feito a formação no Eclair de Douala, transferiu-se em 1970, com apenas 18 anos, para o Léopard de Douala, onde em quatro épocas venceu o tri-campeonato e marcou 89 golos. De referir ainda, que depois destes 3 títulos nacionais, o Léopard nunca mais foi campeão nacional. Em 1974, Milla transfere-se para a capital, mais precisamente para o Tonnerre Yaoundé. E tal como um trovão (tonnerre), o avançado camaronês fez furor na capital. Em 1975, na primeira edição da Taças das Taças africana, Roger Milla guiou a sua equipa à vitória. Na primeira mão da final, fora de casa contra o Stella Club d'Adjamé da Costa do Mardim, o avançado camaronês marcou o único golo da vitória da sua equipa. Na segunda mão, a 14 de Dezembro de 1975, perante mais de 100 mil espectadores, o Tonnerre goleou por 4-1 com um bis de Milla e venceu assim a taça. No ano seguinte, em 1976, o Tonnerre atingiu a final, no entanto não conseguiu levar de vencida o Shooting Stars FC da Nigéria. A nível pessoal foi um ano de glória para Milla, que venceu o prémio de futebolista africano do ano.

Seguiu-se então a transferência para França, onde acabou por fazer grande parte da sua carreira. Valenciennes, Mónaco, Bastia, Saint-Étienne e Montpellier foram os clubes representados por Milla no "Hexágono", onde venceu 2 Taças de França ao serviço do Mónaco e do Bastia. A nível de selecção, Milla tocou o céu ao vencer a Taça Africana das Nações em 1984 e 1988. No final da década de 80, já no ocaso da carreira, Milla deixa França e a selecção e move-se para as Ilhas Reunião. No entanto, os planos para a reforma tiveram de ser adiados. Um telefonema do presidente dos Camarões fez com que Milla regressasse à equipa nacional para jogar o Itália 90. E é aqui que Roger se torna uma estrela global e ganha o seu lugar na eternidade. 4 golos na competição, com 2 bis à Roménia e à Colômbia, e sempre saído do banco de suplentes. Os Camarões atingiram os quartos de final, sendo a primeira equipa africana da história a atingir tal feito. Milla tornou-se ainda o jogador mais velho a marcar num Mundial, feito que voltou a repetir 4 anos mais tarde, ao facturar contra a Rússia. As prestações no mundial italiano valeram ao portentoso avançado camaronês mais um prémio de jogador africano do ano. Milla é ainda hoje o jogador de campo mais velho a ter actuado num Mundial, aos 42 anos de idade, nos Estados Unidos da América, apenas ultrapassado pelos guarda-redes Mondragon em 2014 e El Hadary em 2018.

Para memória eterna ficarão as suas danças na comemoração de golos junto à bandeirola de campo e também o roubo de bola ao irreverente René Higuita nos oitavos de final do Itália 90, que guiou os Leões Indomáveis aos quartos de final. Milla era potência, técnica, força, coragem e atitude. E ainda magia. Muita magia negra num campo de futebol!

Miguel Batista (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

*Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico.

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