Paulinho – o homem que saiu de Cascavel para marcar (n)o futebol português!

Se perguntarmos a algum revivalista do mágico futebol dos anos 80 do século passado, aquele que se jogava ao Domingo à tarde sob a luz solar, quem é Paulo Roberto Bacinello, o mais certo será olhar para nós com ar de desdém e questionar a nossa sanidade mental.

Porém, se apresentamos esta lenda pelo seu nome de guerra, irá certamente sorrir e dizer: esse sim, era craque!

E qual era esse seu nome de guerra?

Paulinho Cascavel, o goleador que na segunda metade dessa década aterrorizou guarda-redes, deu insónias a defesas e marcou um estilo. Quantas crianças por aqueles dias, principalmente em Guimarães, entravam nos barbeiros, que os cabeleireiros ainda eram, apenas, um privilégio feminino, e pediam um "corte de cabelo à Cascavel" ? Sinais de uma idolatria que atingiu o seu expoente na cidade onde nasceu Portugal.

Porém, a história de Paulinho, que era Cascavel em alusão à sua cidade natal que se situa no estado de Santa Catarina, em Portugal nem começou da melhor forma. Tendo sido contratado pelo FC Porto, na temporada de 1984/85, após brilhar nas principais equipas do seu estado, o que o levou a ser contratado pelo colosso carioca Fluminense, não seria feliz na Invicta. Era tarefa dantesca, ciclópica, quando na frente de ataque azul e branca morava um tal de Fernando Gomes, que nessa época seria o melhor marcador de todos os campeonatos europeus com 39 golos. Além disso, como sabemos, a adaptação de um atleta sul-americano aos campeonatos europeus requer paciência, parcimónia, algo que os Dragões já ávidos pela glória europeia que haveria de chegar, não estavam para esperar.

Paulinho faria, deste modo, apenas um jogo de azul e branco, ainda assim suficiente para se tornar campeão nacional, mas, também, para ter a certeza que iria ter dificuldades em deixar um legado no país que o recebera.

Pior ficaria quando percebeu ao que a sua cotação chegara. A história conta-se em poucas palavras. No Vitória SC despontava, nos juniores, um jovem guardião alcunhado de Best. Diziam dele maravilhas. Felino, elástico, de reflexos apurados e já internacional jovem. Era um candidato a suceder a Manuel Bento nas redes nacionais. Pinto da Costa queria contar com o jovem guardião e não foi de modas! Avançou para a sua contratação, sendo que em troca Pimenta Machado, presidente vitoriano, sugeriu uma troca com o brasileiro. Best teve uma carreira em que o apogeu foram os 38 desafios disputados nos seniores do Salgueiros, enquanto a lenda iria surgir...explodir com violência para desespero dos guarda-redes contrários.

Logo, na primeira temporada de branco vestido, sob o comando do saudoso António Morais, seria arrebatador, mostrando que a troca realizada tinha sido vantajosa...para quem o recebera! Seria a alma do futebol ofensivo vitoriano, ajudando o clube a conquistar o quarto lugar e a apurar-se para as competições europeias. Quanto a ele, seria o segundo melhor marcador do campeonato com 25 golos, apenas batido por Manuel Fernandes. Portugal abria a boca de espanto para um homem que de enjeitado no Porto, na sua primeira época em Guimarães vencia o prémio Adidas, destinado a galardoar o jogador que mais vezes fora o melhor em campo durante o campeonato.

O melhor viria, contudo, na temporada seguinte. Aliás, aquela temporada de 1986/87, em Guimarães, foi a época! Ainda hoje é lembrada com saudade! O Vitória, a Cascavel, conseguiu juntar um mago da bola, também brasileiro, de nome Ademir Alcântara. Seria uma dupla de fogo, que fez os Conquistadores sonharem...com tudo! Treinados por Marinho Peres, os vitorianos fariam campanha de excepção, sendo, apenas, derrotados por três vezes no campeonato (os dois jogos perante o Benfica e no ocaso da prova, em casa, frente ao Belenenses). Acabariam a prova no terceiro posto, depois de alguns inesperados empates, fruto da equipa ter sido espremida ao máximo. Além disso, na Taça UEFA seria a surpresa da prova, ao chegar aos quartos de final e eliminar alguns dos mais reputados clubes europeus como o Sparta de Praga, o Atlético de Madrid e, por fim, o Groningen. Cairia aos pés do Borussia Monchengladbach, depois da neve, na Alemanha, ter-se revelado o maior de todos os adversários. Quanto a Paulinho, a temporada foi inesquecível, tendo sido melhor marcador do campeonato com 25 golos e apontado tentos em todas as eliminatórias europeias, com especial destaque para os dois fabulosos golos que, naquela tarde quente, abateu os checos perante um estádio com perto de 40 mil almas.

Ao contrário de há dois anos, onde fora negociado como peso morto, agora, era desejado...seduzido por meio mundo! A aposta de Pimenta Machado, além dos golos, iria render dinheiro! Apostaria no Sporting, onde seria a ponta de uma lança destinada a recuperar um título que, teimosamente, ia fugindo aos leões!

Não conseguiria...

Porém, na primeira temporada manteria o feeling goleador e sagrar-se-ia, novamente, o melhor marcador da Liga Nacional.

Contudo, este seria o último ano em grande do avançado! Os seus números começariam a descer, sendo que, na última das três temporadas vividas nos Leões, apenas marcaria 3 golos. Tal, também, muito por culpa de Fernando Gomes ter-se mudado para Alvalade, voltando a fazer-lhe sombra como nas Antas e do aparecimento de um jovem goleador de nome, Jorge Cadete, nessa altura, a dar os primeiros passos que o levariam a protagonizar uma bela carreira.

Além disso, com o presidente, entretanto eleito, teria problemas. O seu feitio chocaria com a impetuosidade e impaciência de Sousa Cintra. Sem golos e com problemas partiria sem ter ajudado à conquista do seu grande objectivo...o título nacional!

A sua última paragem seria Barcelos, no Gil Vicente, que, nessa altura, dava os primeiros passos no escalão principal do futebol português. Não seria feliz, pois os problemas físicos que já o iam apoquentando, tornavam-se cada vez mais presentes! Faria, apenas, 8 jogos, para terminar a carreira aos 31 anos!

Porém, a sua lenda perdura... muito por fruto da sua ligação a Portugal, onde nasceram os seus filhos Guilherme (que tentou carreira no futebol, tendo chegado a jogar nos juniores do Vitória e em vários clubes seniores) e Vitória e onde mantém negócios, é figura sempre presente!

E quem poderá esquecer aquele jeito letal de aparecer na área, ou quando tal não era possível, os petardos do meio da rua que destroçavam qualquer resistência?

Era Paulinho, um meteorito, saído de Cascavel, destinado a marcar (n)o futebol português!

Vasco André Rodrigues (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

Outras Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de