Wolverhampton. A armada portuguesa que conquistou sua majestade!

Um clube histórico em Inglaterra, com sotaque português.

O Wolverhampton é uma das equipas sensações do futebol da Premier League nos últimos anos.

Falamos de um clube com fortes tradições no futebol de "Terras de Sua Majestade", que entrou na história por ser a equipa que disputou os primeiros jogos nocturnos no país, nos idos anos 50, altura em que ganhou um dos seus maiores galardões, ainda que oficioso. Os Lobos, com efeito, em 1954, bateram o mítico Honved, campeão da Hungria e a base da fantástica selecção magiar, o que lhes valeu o título de "campeões do mundo"! Por essa razão, mas por na altura ser a equipa mais forte do país, vencedora de três campeonatos (53/54, 57/58, 58/59), seria dos primeiros participantes ingleses na então pueril Taça dos Campeões Europeus. Os seus uivos ultrapassavam fronteiras!

Nesses anos, fruto das transmissões televisivas nocturnas, um jovem enamorou-se por aquela equipa que via mas cujas camisolas, fruto dos aparelhos a preto e branco, mal conseguia distinguir. George Best, o quinto Beatle, apesar de ter feito fama e fortuna com a camisola do Manchester United, jamais esqueceria o amor de infância, chegando mesmo a assumir na sua autobiografia que o seu sonho por cumprir foi nunca ter actuado no Molineux, estádio da equipa, com a camisola laranja que distingue os Wolves.

Porém, os anos 50 já lá vão...

Posteriormente, o clube entraria numa espiral de quebra de resultados. A magia dos anos 50 desapareceria, os problemas financeiros seriam o apanágio do emblema que tivera em Billy Wright, 103 vezes internacional pela selecção dos Três Leões e o primeiro jogador inglês a ultrapassar a centena das internacionalizações, o seu maior ídolo.

O clube banalizar-se-ia. Os lobos deixaram de ser famintos por grandes títulos, sendo a final da Taça Uefa, disputada na temporada de 1971/72, perdida para os compatriotas do Tottenham, o último grande feito de uma equipa que houvera sido das maiores do Velho Continente, apenas 20 anos antes.

Os problemas financeiros esses agudizavam-se, impedindo a equipa de crescer e se manter a par dos emblemas mais fortes da Velha Albion. Um aristocrata saudoso de tempos passados, a olhar para as fotografias de glórias antigas, paradigma que nem as constantes mudanças de proprietário conseguiu alterar.

Entre estas, destaque para Jack Hayward. Este era um adepto apaixonado do clube, que, apesar de não ter feito o Wolverhampton descolar da espiral negativa de resultados desportivos, conseguiu nos anos 90 do pretérito século um feito de destaque. Renovou um vetusto, pouco funcional e delapidado Molineux, dando-lhe o aspecto moderno que hoje possui!

Avancemos na história, até 2016! Bem próximo dos nossos dias, portanto! A 21 de Julho de 2016, o grupo financeiro chinês Fosun comprou o clube. Refira-se, a talhe de foice, que a Fosun detém diversos interesses, também em Portugal, como hospitais, companhias de seguros e bancos. A ajudar a incursão deste conglomerado empresarial no desporto-rei esteve, simplesmente, o maior empresário de futebol à escala planetária: o português Jorge Mendes.

Com Mendes ao lado, tudo mudou nos Wolves, então a ocuparem os lugares medianos do Championship, o segundo escalão inglês. Depois do italiano Walter Zenga ter sido o primeiro treinador contratado pelos novos donos, durando apenas catorze jogos, o escocês Paul Lambert teria a tarefa de levar os lobos até ao final dessa temporada de 2016/17.

Até que chegou o português Nuno Espírito Santo ao comando técnico da equipa. Refira-se que este foi um dos primeiros representados por Jorge Mendes no mundo do futebol, tendo sido a sua transferência do Vitória SC para o Deportivo da Corunha, em 1996, que abriu a alta-roda do futebol mundial ao super-agente.

Com Nuno, chegaram outros jogadores bem conhecidos do futebol português. À cabeça, um jovem e genial médio que, por sortilégios do desporto-rei, não se impôs no FC Porto. Falamos de Ruben Neves, hoje, um dos melhores jogadores da Premier League, cobiçado pelos tubarões do campeonato e admirado por homens como Guardiola ou Klopp. Contudo, além deste, destaque para os nomes de Rúben Vinagre, Roderick Miranda, Diogo Jota, Boly ou Léo Bonatini. A armada de portugueses e com ligação ao futebol português seria irresistível... conquistaria a desejada promoção com uma clareza que dava já a entender que tal não seria o fim do caminho, mas, apenas, uma etapa para outros patamares.

Na temporada anterior, com a armada lusitana enriquecida com homens como Rui Patrício, o guardião titular da equipa de Todos Nós, João Moutinho, ou o mexicano Raul Jiménez, os lobos uivaram com veemência na Premier League. Um sétimo posto com vistas para a Liga Europa e a chegada a Wembley na mítica Taça de Inglaterra. Tal seria um dos maiores dramas na história recente do clube, pois depois de estar a vencer por duas bolas a zero o Watford, cederia o empate aos 94 minutos, para perder o sonho de disputar o jogo decisivo frente ao Manchester City no prolongamento... um pouquinho de fado lusitano numa história feliz.

A presente temporada tem seguido as premissas da anterior, com o bónus dos Wolves ainda se encontrarem a disputar a Liga Europa, tendo ainda que resolver os oitavos de final da competição, perante outra equipa cheio de atletas lusitanos a dar cartas na Europa do futebol: o Olympiakos orientado por Pedro Martins e que conta nas suas fileiras com homens como José Sá, Bruno Gaspar, Cafú e Rúben Semedo.

Na máxima prova inglesa, o sonho passa por novo apuramento para a Liga Europa, agora que se sabe que o Manchester City terá direito a participar na Champions League da próxima temporada. Mesmo que tal não suceda, alguém poderá deixar de admirar a equipa mais portuguesa de Inglaterra, que deixou a sumptuosa e selecta Premier League, embasbacada com tantas manifestações de bom futebol?

Vasco André Rodrigues (A Economia do Golo)*

Esta rubrica é uma parceria TSF e A Economia do Golo

* Nota do Editor: O autor opta por escrever ao abrigo do anterior acordo ortográfico.

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