A nova geração de game designers que está a levar a cultura portuguesa para os videojogos

Há uma nova onda de criadores de jogos de vídeo a formar-se em Portugal e que está a apostar nas tradições portuguesas como material para a fantasia do mundo virtual.

À nossa frente estão chocalhos, mas não estamos no campo. Não exatamente. Estamos em frente a um ecrã. Este é o "Careto", um videojogo sobre os mascarados do Carnaval de Podence. Esses mesmos, os que "achocalham" as pessoas nas ruas e que, em 2019, foram considerados Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

"O jogador é um 'facanito' (um careto criança), que vai percorrendo a aldeia de Podence, vai colecionando objetos típicos de Trás-os-Montes - como as castanhas, os grelos, a lã,... - e chocalhos, porque os caretos precisam de chocalhos!", explica à TSF Matilde Albuquerque, a criadora do jogo de vídeo, dos MA Studios. O jogador pode ainda construir o fato do careto, provocar as pessoas na rua e completar a grande escultura do Careto construída todos os Carnavais para a Queima do Entrudo.

Matilde tem 24 anos. Começou por estudar Design de Comunicação, na Faculdade de Belas-Artes, em Lisboa. Mas quando fez Erasmus em Paris, tomou maior contacto com a cultura dos videojogos e, ao regressar a Portugal, decidiu seguir o curso de Animação e Videojogos na ETIC - Escola de Tecnologias Inovação e Criação.

"Fazer um jogo é toda uma experiência sensorial que depende de muitas áreas - a programação, a arte,... - e isso interessou-me", revela Matilde.

E foi nas tradições portuguesas que a jovem criadora encontrou espaço para explorar o mundo dos videojogos. "Temos muita mitologia, há imensas histórias que ainda não foram contadas, ou que estão até mal contadas... E temos também muitas tradições que têm uma plasticidade e uma estética muito específica, muito nossa", salienta. Qualidades que Matilde reconheceu no universo dos caretos e que a levaram a pensar que este daria um jogo de vídeo.

Matilde fez-se à estrada e foi até Podence, fazer trabalho de campo. Conheceu o ambiente, a população local, as histórias e os segredos da tradição. E nem os mais pequenos pormenores foram esquecidos. "Queria muito que o "Careto" representasse a aldeia de Podence da forma mais fidedigna possível, portanto decidi que todas as casas que existiam no jogo tinham de existir mesmo na aldeia. Tirava fotos e desenhava-as. Portanto, todas as casas que lá estão existem mesmo", conta.

O jogo surgiu em contexto académico, mas evoluiu fora do curso. Está a ser desenvolvido para telemóvel, mas poderá chegar também à PlayStation® 4 e Nintendo Switch™. O trabalho valeu a Matilde o prémio de Melhor Arte nos últimos Prémios PlayStation Talents em Portugal.

Entre os finalistas para os prémios deste ano está Tomás Longo, um jovem game designer do estúdio independente Primis Games. Hoje, com 20 anos, está no segundo ano do curso de Jogos Digitais e Multimédia, no Instituto Politécnico de Leiria. Mas o caminho dos jogos de vídeo não foi um sonho de criança. Tomás confessa à TSF que, até ao último ano do secundário, "não fazia a mínima ideia do que queria seguir".

"Falava com os meus colegas, que já sabiam o que queriam fazer da vida, tinham tudo planeado, e eu estava completamente perdido", admite o jovem, que acabou por entrar no clube de robótica da escola e começou a aprender programação. "Depois, interessei-me por modelação 3D, fui um bocado autodidata." O "clique" aconteceu quando descobriu o curso no Politécnico de Leiria, e aí abriram-se as portas para "algo incrível e gigante, um mundo para além do que imaginava".

Tomás é o responsável por "ONIS", um jogo de estratégia que assenta nos tradicionais azulejos portugueses e onde as personagens com que se joga são grandes navegadores da História de Portugal - de Vasco da Gama a Pedro Álvares Cabral, passando por Gil Eanes ou Bartolomeu Dias.

Com este jogo, o objetivo de Tomás foi recriar "aquelas noites de tabuleiro, em que toda a família se reúne" e juntar "os mais novos e os mais velhos" à frente do ecrã, notando que os jogos de vídeo são uma "boa forma de ensinar aos jovens a nossa História".

Também Tomás vê nas raízes portuguesas um universo incrível que merece chegar aos videojogos. "A nossa cultura é uma coisa enorme e acho que temos de começar a aproveitá-la", reforça.

O jovem não tem dúvidas de que a indústria dos videojogos está a crescer em Portugal, com esta nova vaga de criadores de jogos. "Não vou só dizer que há uma nova geração, como dizer que há uma boa geração", frisa. E a crescente oferta a nível académico nesta área é, na opinião de Tomás Longo, um dos fatores para esta evolução. "É importante a formação, podemos escolher, finalmente, os cursos de jogos, que são muito novos."

Apesar de tudo, continua a ser muito difícil viver dos videojogos em Portugal. Grande parte dos criadores tem mesmo de ter outros empregos.

"Vou trabalhando como freelancer em design e ilustração. Mas estes projetos dos jogos de vídeo são realmente aquilo que gosto mais de fazer", adianta Matilde Albuquerque, que está já a desenvolver mais um videojogo nomeado para os prémios PlayStation Talents - desta feita, "Laura", um jogo sobre a Primeira Grande Guerra e os campos de concentrados alemães nos Açores.

Para que esta arte multimédia não se perca, com as dificuldades da vida, é preciso muita vontade - mas também disponibilidade para investir, por parte dos grandes decisores

"É complicado, em Portugal, com jogos indie, trabalharmos só nisso. É preciso que haja investimento, que não haja receio em investir nos videojogos", apela Matilde Albuquerque.

"Somos novos, mas estamos a crescer. Devemos poder mostrar que realmente somos bons a fazer o que fazemos", conclui Tomás Longo.

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