"Há muito poucas fábricas no mundo." Especialista explica escassez de semicondutores

As alterações aos padrões de consumo, estimuladas pela pandemia, também estão por trás desta escassez.

Arlindo Oliveira, professor do departamento de informática do Técnico e presidente do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, explica porque é que é tão complicado produzir semicondutores.

"Os processadores neste momento são tão complexos - os mais complexos têm mais de dez mil milhões de transístores cada um numa área pequena, de um centímetro quadrado - e portanto há muito poucas fábricas no mundo que os podem fabricar. Esse é um dos desafios. Depende um bocadinho da complexidade, mas os processadores que vêm nos iPhones, por exemplo, há só uma empresa no mundo que os fabrica, em Hong Kong, mas mesmo em geral o investimento em novas fábricas é muito grande e está centrado na Ásia. Uma nova fábrica para fazer estes circuitos custa entre dez e 20 mil milhões de dólares. Só para termos uma ideia, isso é toda a dimensão do Plano de Recuperação e Resiliência para Portugal, são valores muito elevados", explicou à TSF Arlindo Oliveira.

As mudanças nos padrões de consumo, estimuladas pela pandemia, também estão por trás desta escassez.

"As alterações nos padrões de consumo levaram a que as pessoas comprassem mais televisões, computadores e outros aparelhos e isso, acoplado também a algumas falhas de planeamento por parte das fábricas, faz com que agora haja uma escassez grande. É preciso esperar meses até estarem disponíveis alguns semicondutores em particular, para os quais há filas de espera muito grandes", afirmou o professor do departamento de informática do Técnico.

A técnica de produção do semicondutor também é muito sofisticada, o que faz com que nem todas as fábricas o consigam fazer.

"A tecnologia de fabrico de um semicondutor basicamente consiste em pegar numa bolacha de silício, que é um metal brilhante, de cerca de 20 centímetros de diâmetro, e depois, com técnicas muito sofisticadas de litografia, pintar basicamente estes milhares de milhões de transístores e isto é uma tecnologia tão sofisticada que são precisas fábricas muito caras, os aparelhos que fazem isso são muito caros. Portanto, o ocidente em particular optou por não investir tanto no fabrico. Há algumas fábricas, mas a maioria está na Coreia e em Hong Kong", acrescentou Arlindo Oliveira.

José Couto, presidente da Associação de Fabricantes da Indústria Automóvel (AFIA), afirma que a Europa já sente este problema há um ano e reconhece que a situação é preocupante.

"Há momentos em que a situação é muito grave porque há empresas que têm de parar as suas linhas de produção e outros em que a situação é menos grave, mas tem-se verificado, no último ano, paragens sistemáticas da atividade. Portanto é grave. A nossa expectativa é um pouco negativa porque acreditamos que, pelo menos durante o próximo ano, a situação vai manter-se idêntica à que vivíamos no ano 2021", revelou José Couto.

O presidente da AFIA acredita que a falta de semicondutores não vai ser resolvida a curto prazo.

"Os esforços, em termos de aumentar a produção deste tipo de componentes, só terão efeito no final de 2023, princípios de 2024, se correr tudo bem. A nossa preocupação, no próximo ano, é mantermo-nos com um fluxo regular, sem grandes perturbações em termos de produção", acrescentou o presidente da Associação de Fabricantes da Indústria Automóvel.

Em Portugal, a AFIA calcula que o setor dos componentes dê emprego a cerca de 62 mil pessoas.

O resultado da produção nas fábricas asiáticas não está a chegar às fábricas norte-americanas, o que tem levado a que a escassez de semicondutores nos EUA esteja a atingir níveis preocupantes e a aumentar a perspetiva de uma paralisação das fábricas, revelou na terça-feira o Departamento do Comércio norte-americano.

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