Grandes potências preparam-se para guerra no espaço, 50 anos depois da ida à lua

Os Estados Unidos têm planos para a criação de uma Força Espacial autonomizada. A China mantém o segredo sobre a Força de Apoio Estratégico chinesa. A Rússia mantém a hierarquia herdada dos tempos soviéticos, onde a guerra espacial foi muito estudada.

Os Estados Unidos anunciaram para 2020 a criação de uma Força Espacial, em 2015 a Rússia reativou as suas forças espaciais, mas a China é o único país que tem uma força militar independente para missões no espaço.

Quando se comemoram os 50 anos da chegada da humanidade à Lua e quando a agência espacial norte-americana NASA pretende voltar a colocar astronautas na superfície lunar, em 2024, especialistas consideram que o século XXI terá dois relevantes palcos de conflito militar, a ciberguerra e a guerra espacial, e as grandes potências estão a levar muito a sério os avisos dos estrategos.

Em junho de 2018, o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pediu ao Pentágono para começar os planos de criação de uma Força Espacial - um novo ramo das Forças Armadas, que se autonomizaria da Força Aérea e que ficaria com o controlo do Comando Espacial norte-americano.

A China foi o primeiro país a criar, em 2016, um ramo militar autónomo - a Força de Apoio Estratégico do Exército Popular de Libertação - com competências na área da guerra eletrónica e do espaço, no âmbito da reforma das Forças Armadas, realizada a partir de 2015.

Como geralmente acontece nestas situações, pouco se sabe sobre a Força de Apoio Estratégico chinesa, mas o ministro da Defesa chinês, Yang Yujun, descreveu-a como um corpo multidisciplinar.

Não se sabe sequer qual o orçamento destinado a este corpo especial, e foi apenas revelado que a estrutura hierárquica é semelhante à da Força de Mísseis do Exército chinês, que controla o arsenal de mísseis balísticos.

A Força Espacial norte-americana tem já orçamento conhecido e destinado para os próximos cinco anos, a rondar os oito mil milhões de euros, tendo a primeira fatia ficado já alocada no orçamento para 2020, com apoio dos dois partidos no Congresso.

O vice-Presidente dos EUA, Mike Pence, já avisou que quer essa força operacional no início de 2020, apesar das resistências das altas patentes da Força Aérea, que viram este setor estratégico fugir da sua área de influência.

A intenção do Pentágono é criar mecanismos que impeçam ações de sabotagem dos satélites de navegação e de comunicação, com ataques eletrónicos.

Em agosto de 2018, Pence reconheceu que a China, a Rússia, a Coreia do Norte e o Irão têm tecnologia com capacidade de interferência eletrónica e de domínio do espaço que devem preocupar os norte-americanos.

Há cerca de 40 anos que as armas antissatélite têm sido desenvolvidas por vários países, incluindo os EUA, a Rússia e a China, para fins estratégicos militares.

Em janeiro de 2007, a China destruiu um antigo satélite meteorológico, para testar uma dessas armas, com um sucesso que causou alarme no Pentágono.

Com a chegada de Donald Trump à Casa Branca, o espaço sideral passou a ser uma nova prioridade científica e militar, com o Presidente a prometer um novo programa espacial, que incluiria uma forma "rápida e económica" de viajar até à lua e voltar.

Trump foi sensibilizado pelos assessores militares que, em 2017, o alertaram para os riscos de os Estados Unidos estarem a perder o controlo do espaço.

"Mas não se pense que haverá uma guerra apenas no espaço", explicou na altura Brian Brown, comandante adjunto do Comando Espacial, que a partir do próximo ano ficará sob tutela da Força Espacial.

"No momento em que um conflito estalar no espaço ele afetará todos os domínios", concluiu Brian Brown, numa perspetiva que parece estar em linha com a opção militar chinesa, polivalente, para a sua Força de Apoio Estratégico.

Tal como na China, os EUA querem, contudo, que a Força Espacial seja totalmente autónoma relativamente aos outros ramos das Forças Armadas, rejeitando um relatório de 2001, encomendado pela administração de Bill Clinton, que falava nos "insuportáveis custos financeiros" de uma restruturação profunda do sistema militar norte-americano.

Ainda agora, o general David Goldfein, chefe de gabinete do comandante das Forças Aéreas norte-americanas, defende que deve ser o seu braço armado a ter a supervisão da componente espacial das Forças Armadas, alegando que até ao nível da formação é nesse setor que estão as competências mais adequadas.

Goldfein argumenta ainda que 90% das operações no espaço são supervisionadas pelas Forças Aéreas, e recordou um episódio em que um caça norte-americano que sobrevoava o Iraque, em 2017, ter sido afetado por interferências no satélite de comunicações, cuja resolução foi rapidamente atingida pelos seus militares.

"Literalmente, num minuto eles detetaram e resolveram o problema", concluiu Goldfein, falando das competências cibernéticas das Forças Aéreas.

Dentro do Pentágono, são várias as vozes que alinham por esta opção de colocar a Força Espacial dentro da Força Aérea, como acontece na Rússia, onde o Presidente Vladimir Putin concedeu às suas patentes não mexer na hierarquia herdada dos tempos soviéticos, onde a guerra espacial foi muito estudada.

Contudo, Donald Trump já disse que não recuará na sua intenção de autonomizar a Força Espacial e tem levado o tema para alguns dos seus comícios de reeleição, nas presidenciais de 2020, dando a entender que pode vir a ser um dos seus trunfos políticos.

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