Crónica

O meu nome (e o de mais 10 mil portugueses) vai para Marte. E não caibo em mim de entusiasmo

O que dirá a primeira pessoa que pisar a superfície de Marte? A NASA espera conseguir pôr humanos no planeta vermelho algures na década de 2030, por isso é bom que já haja alguém a pensar nisso.

Há 50 anos, Neil Armstrong deve ter ponderado bem o peso das suas palavras. Se calhar ensaiou-as ao espelho, em voz alta. Antes de saber, por experiência, que na Lua só se dão saltinhos, imaginou o pequeno passo para o Homem que daria em nome de toda a humanidade.

E não, não há guiões para astronautas. Charles P. 'Pete' Conrad quis prová-lo e a primeira coisa que disse ao sair do módulo lunar foi uma piada.

As palavras importam. A ciência leva um grupo restrito de pessoas ao Espaço, mas é a palavra escrita, escutada na rádio ou na televisão que nos leva a todos.

Por isso, quando a NASA me propõe que contribua com uma palavra para a História da exploração espacial, não hesito. O meu nome, e o de quase oito milhões de pessoas, incluindo mais de 10 mil portugueses, vai para Marte. Já tem lugar marcado, até bilhete.

No laboratório do Jet Propulsion Laboratory em Pasadena, Califórnia (Estados Unidos), um feixe de eletrões vai gravar os nomes submetidos no site da NASA num microchip de silicone, em linhas mais pequenas do que um milésimo de um cabelo (75 nanómetros). Os vários chips, onde cabem mais de um milhão de nomes, vão ser afixados no rover que vai para Marte, e tapados por um vidro.

Este nova sonda do tamanho de um carro vai ser lançada em julho do próximo ano e conta pousar na cratera Jezero em fevereiro de 2021. Em conjunto com a missão europeia ExoMars, tem a missão de procurar sinais de um passado onde pode ter existido vida microbiana. Ficará no planeta durante 687 dias, o equivalente a um ano marciano.

Mas "o que há num nome?" Sim, isto é só uma campanha institucional, promocional. A NASA quer voltar a despertar o entusiasmo pela exploração espacial, aparentemente perdido numa era em que a tecnologia nos leva a crer que já sabemos tudo sobre o que existe para lá do horizonte. Não sabemos.

Quando Neil Armstrong e Buzz Aldrin alunaram pela primeira vez, a humanidade vibrou com todos os passos. Até num Portugal tão distante da Lua, em plena ditadura, o proprietário da única televisão da aldeia mais pequena do Interior mais remoto ligou o aparelho e convidou todos a entrar. A RTP fez uma maratona de 18 horas.

A missão Apollo 11 tinha a adrenalina de uma corrida já perto da meta - Estados Unidos vs Rússia. Seria este o âmago da paixão que lhe estava associada? Poucos saberão os nomes dos outros 10 astronautas que pisaram a Lua. Porque apenas a competição desperta excitação ou porque se esvaneceu o fascínio das primeira vezes? Será o ser humano assim tão egocêntrico?

A curiosidade devia estar-nos no ADN, o desejo de superar todos os limites e explorar o desconhecido ser inato, um poder unificador de todos os terráqueos.

É legítimo que a NASA tente incitar o Homem a voltar a contemplar o céu com assombro. As missões a Marte para envio de sondas custam fortunas e uma missão tripulada será ainda mais dispendiosa. Mas sem emoção, não há dinheiro.

Não sei como é possível olhar para as estrelas sem se deixar arrebatar. Em criança nunca precisei de telescópio, bastava o Mapa do Céu da Super Interessante. Deitada sob o céu escuro, longe da poluição de luzes artificiais, apontava a seta no topo da página a norte e seguia as linhas imaginárias das constelações. A vista da Terra lá de cima deve ser de cortar a respiração, mas a janela cá em baixo é igualmente imponente.

E Marte, um planeta irmão, vizinho, com condições para abrigar vida, era um pontinho vermelho. Absolutamente fascinaste.

Antes de a minha idade chegar aos dois dígitos, quando passeava com o meu pai na serra este encontrava amiúde meteoritos que eu guardava como tesouros. Imaginava com prazer que aquela pedrinha teria sido uma grande rocha que se fragmentou na violência do cosmos, percorrera milhões de anos-luz, sobrevivera ao impacto com a barreira protetora da atmosfera e fora cair ali, aos meus pés.

Só assimilei a pequena mentira do meu pai recentemente, ao segurar num verdadeiro meteorito numa exposição. Quando a pedra espacial aterrou nas minhas mãos unidas em concha não tinha um terço do peso dos pedacinhos de manganês que durante anos adornaram orgulhosamente a estante dos livros no meu quarto.

As palavras importam. Não posso sentir o estômago apertado com a contagem decrescente e o corpo colado à cadeira com forças de quatro, cinco, seis G, para depois chegar a zero e flutuar daquela maneira peculiar cantada por David Bowie. Mas posso sentir-me inspirada, admirada, assoberbada com a história de quem ocupar esse lugar na viagem para Marte.

Não vi o Homem ir à Lua - quero ver o Homem ir a Marte. E espero que aqueles que viverem depois de mim cheguem ainda mais longe. Talvez venham a ser verdadeiros marcianos.

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