Radovan Karadzic, "o carniceiro dos Balcãs" que é um homem de "mil caras"

Formou-se em psiquiatria, escrevia poesia e esteve fugido à justiça durante 12 anos. O Tribunal Penal de Haia condenou Radovan Karadzic a prisão perpétua por genocídio e crimes de guerra.

Hoje com 73 anos, um tribunal de Haia agravou para prisão perpétua a condenação por genocídio e crimes de guerra, após a sua condenação a 40 anos em primeira instância perante o Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia (TPIJ), em março de 2016.

O antigo líder político dos sérvios bósnios Radovan Karadzic, psiquiatra de formação, poeta, em fuga após o final do conflito até à sua detenção em 2008, foi um dos protagonistas do mais violento conflito europeu pós-Segunda Guerra Mundial.

No momento da sua prisão pela polícia sérvia em Belgrado, em 21 de julho de 2008 e após 12 anos em fuga, usava uma farta barba branca, cabelos compridos, chapéu, e apresentava-se como o médico Dragan Dabic, especialista em medicina alternativa exercendo num consultório da capital da Sérvia.

O antigo líder sérvio bósnio -- que em 1984 tinha sido detido durante 11 meses pela justiça jugoslava em Sarajevo sob a acusação de fraude num negócio imobiliário -- estava em fuga mas não se ocultava. Surgia em locais públicos, participava em conferências e algumas das suas intervenções, que atraíam muito público, foram filmadas por televisões locais. Neste período publicou ainda três livros de poesia.

Poucas pessoas sabiam onde se encontrava, mas em Belgrado especulava-se que os serviços secretos sérvios ajudavam-no a ocultar-se, enquanto os setores nacionalistas promoviam diversas iniciativas públicas destinadas a dificultar a sua detenção.

Designado "carniceiro dos Balcãs" pelos seus inimigos muçulmanos e croatas bósnios, Karadzic permanece popular entre os sérvios da Bósnia-Herzegovina, que o consideram um "herói" da guerra.

Após ter sido condenado pelo TPIJ, centenas de pessoas assistiram à inauguração de uma cidade universitária em Pale -- arredores de Sarajevo e a "capital" dos sérvios bósnios durante a guerra civil (1992-1995) -- contemplada com o nome de Karadzic.

"Dedicamos esta cidade a Radovan Karadzic, o homem que indubitavelmente construiu os fundamentos da Republika Srpska [RS, a entidade dos sérvios bósnios], o primeiro presidente da República", declarou na ocasião o presidente da RS, Milorad Dodik, criticando uma vez mais as decisões do TPIJ.

Natural de Petnjica, uma povoação rural do Montenegro onde nasceu em 19 de junho de 1945, Karadzic tinha cinco anos quando conheceu pela primeira vez o seu pai, detido pelo poder comunista jugoslavo por ter participado no movimento realista dos 'tchetniks' durante a Segunda Guerra Mundial.

Aos 15 anos muda-se para Sarajevo, inicia estudos de Medicina em 1964 e especializa-se em psiquiatria. Para além da poesia, escreve peças de teatro e interpreta música folclórica sérvia.

O seu mentor, o psiquiatra Ismet Ceric, descreveu-o como um homem de "mil caras diferentes", sugerindo que possuía distúrbios de personalidade.

Em 1989, com a emergência dos nacionalismos, funda o seu Partido Democrático Sérvio da Bósnia (SDS), que permanece uma das principais formações políticas da ex-república jugoslava.

O projeto de partilha da Bósnia-Herzegovina acelera-se com a organização em março de 1992, por muçulmanos e croatas bósnios, de um referendo sobre a independência mas que os sérvios locais rejeitam e boicotam. A guerra é despoletada no início de abril, após o reconhecimento da independência da Bósnia pelos Estados Unidos e a então Comunidade Económica Europeia (CEE).

Foi o início das campanhas de limpeza étnica promovidas pelos sérvios bósnios no leste do território, expulsões e massacres que depois se generalizam entre as partes em conflito.

No final de 1995, Karadzic é afastado das negociações de paz em Dayton (Estados Unidos) pelo seu aliado e então o homem forte de Belgrado, Slobodan Milosevic. No ano seguinte, as potências internacionais forçam-no a limitar as suas aparições em público, e decide optar pela clandestinidade, antes de ser indiciado pelo TPIJ por genocídio e crimes de guerra, incluindo pelo seu suposto envolvimento no massacre de Srebrenica.

Passados 12 anos, período onde também terá obtido acolhimento em diversos mosteiros ortodoxos, foi detido em Belgrado e enviado de imediato para as celas do TPIJ, perto da cidade holandesa de Haia, a sede da instituição judicial 'ad hoc' da ONU. Reaparecia Radovan Karadzic, extinguia-se para sempre o "doutor Dabic".

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