Abbas Gallyamov: "Putin já não é adorado pelos russos como acontecia há uns anos"

A oposição é inexistente mas o cansaço com o Rússia Unida é evidente. Nas eleições parlamentares em que Putin se mantém afastado, os russos votam até Domingo. Leia a entrevista ao homem que escreveu discursos para o presidente.

Escreveu discursos para Vladimir Putin, em duas fases diferentes do longo reinado político do atual presidente. É comentador sobre a política interna russa nos principais jornais diários de Moscovo. Cientista político, foi vice-chefe da administração Rustem Khamitov na república russa do Bascortostão, a antiga Baquíria, entre o Volga e os Urais. Hoje consultor político independente, Abbas Gallyamov conversa com a TSF no primeiro de três dias de eleição para o parlamento russo, a Duma.

O que espera destas eleições? Quais são as tendências principais?

É realmente difícil prever porque existem duas tendências mutuamente exclusivas. Duas tendências dominantes que são mutuamente exclusivas na sua abordagem à situação. Quer dizer, por um lado, uma insatisfação crescente da população com o regime. E, por outro lado, todas essas repressões do governo contra a oposição, levam definitivamente ao desânimo da oposição, levam à supressão da oposição. Portanto, é muito difícil prever qual emoção vai prevalecer. Porque se, de acordo com a primeira tendência, esta irritação e insatisfação com as autoridades, ressentimento, prevalecerem, haverá grande afluência do eleitor progressista e aí a Rússia Unida, o partido que governa, o partido do Kremlin, eles terão de realmente falsificar as eleições para ganhar. E, neste caso, há possibilidade de grandes protestos a seguir às eleições, como aconteceu na Rússia em 2011, como aconteceu na Bielorrússia no ano passado.

Mas se prevalecer a segunda tendência, essa supressão, esse sentimento de que tudo é inútil, de que as autoridades vão vencer de qualquer maneira, esse sentimento de que o mais forte acaba por ficar mais forte, então aí vai ser baixa a afluência às urnas do voto de protesto, e então as autoridades vencerão facilmente. Enfim, pode sempre acontecer algo inesperado, porque, sabe, as intenções de voto do partido do governo andam à volta de 27-28% agora; ou seja, é menos de um terço da população que quer votar no partido de Putin e dois terços da população ou melhor, quase três quartos da população, já não quer mais votar nesta Rússia Unida. Então, o Kremlin quer obter o controlo de todo o parlamento ou de, pelo menos, dois terços ou mesmo três quartos do Parlamento, como sempre tem acontecido. Portanto, existe uma grande tensão entre esses dois objetivos. Por um lado, a avaliação de 27-28%, por outro lado, a intenção de ganhar com 75%. Quando tentas transformar 27 em 75, Deus sabe o que pode acontecer.


Então, na sua opinião, o governo, a Rússia Unida, o Kremlin no fim da linha, pretendem que haja uma baixa afluência, porque do seu lado estão eleitores dependentes do estado, que já decidiram em quem votar...

Bem, eles definitivamente prefeririam ter uma participação baixa entre o eleitor do voto de protesto e entre os grandes grupos da população, especialmente nas grandes cidades. E preferem uma elevada afluência, naturalmente, entre os eleitores leais. Mas sabe, o eleitor leal é muito passivo. É como se todas as pessoas que são ativas já fossem contra o regime. Apenas os grupos passivos, os grupos mais conservadores, ainda são a favor do regime. Mas também eles estão insatisfeitos com o que está a acontecer no país porque o nível de vida está a cair há oito ou nove anos, certo? Então, também estão descontentes. São leais, mas é principalmente porque não veem nenhuma alternativa e estão acostumados a ser leais. Esta é a sua tradição. São muito conservadores mas já não adoram Putin como acontecia há muitos anos. Então, muito provavelmente, sentem que não gostam do que está a acontecer no país, mas ainda têm que ir à prova de água do governo, não ficam felizes são passivos de um modo geral mas agora também não estão contentes com o que está a acontecer no país. Portanto, estas duas coisas em conjunto, podem facilmente levar a uma participação muito baixa entre os eleitores fieis ao regime.

E o Kremlin sabe disso e por isso não conta que as pessoas venham por si próprias aos locais de votação. Portanto, o Kremlin terá que usar o que designam de recursos administrativos aqui na Rússia. Isso significa pressão sobre as pessoas que trabalham nas organizações públicas ou em empresas filiadas às autoridades. Nestes três dias de votação há uma pressão muito forte sobre as pessoas leais ao regime para que vão votar...

Essas são eleições parlamentares, as pessoas votam para eleger os deputados para a Duma. Mas podemos ler estas eleições também como um voto de confiança em Vladimir Putin, tal como a eleição presidencial de 2018 ou o referendo constitucional do ano passado?

Até certo ponto, sim. Eu não diria que isso é 100% verdade, porque Putin tenta ficar afastado destas eleições, não se envolveu pessoalmente. Se ele tivesse feito isso, provavelmente poderíamos facilmente ler os resultados como um referendo sobre ele pessoalmente. Agora, isso está na cabeça dos eleitores. Não se trata apenas de um referendo a Putin, mas a forma geral dos expressarem os seus sentimentos sobre o que se passa no país. Eles sentem que têm a possibilidade de enviar um sinal às autoridades.

Diria que se a oposição impedir o Rússia Unida de ter dois terços do Parlamento, isso será uma conquista considerável para a oposição?

Bem, definitivamente, será uma conquista para a oposição. Mas não tenho certeza se eles o vão conseguir fazer porque a oposição está quase destruída, organizacionalmente, está desmoralizada e não tem os seus candidatos inscritos. Então, não podem facilmente impedir as autoridades de chegar a esses dois terços, muito provavelmente. Parece claro que perderão essas eleições ainda que o resultado real possa não ser esse.

Para mim, a principal consequência dessas eleições não é apenas o controle formal sobre o parlamento, isso permanecerá o mesmo. Ainda estará sob controlo do governo. Mas não menos importante é a legitimidade geral do regime. E definitivamente, se falsifica as eleições, vai sofrer um duro golpe nessa legitimidade. E, bem, este não é o fim da política na Rússia. Mesmo que o Kremlin ganhe, não quer dizer que tudo acabou. O amanhã chegará e depois um novo ciclo começará, o ciclo que levará o país às eleições presidenciais de 2024, que são muito mais importantes do que as eleições parlamentares deste fim-de-sema. Porque é a questão de Putin: se ele decidir concorrer de novo ou se escolhe um sucessor. De qualquer forma, algo muito importante pode acontecer. Se a legitimidade sofrer um golpe duro após as eleições parlamentares, então o Kremlin entra neste novo ciclo num estado enfraquecido.

A estratégia dos partidários de Navalny de escolher um candidato, mesmo que esse candidato não fosse da própria organização, mas que fosse um candidato contra o Rússia Unida, do género, um por todos todos contra um, não acabou por dar frutos?

Provavelmente não será tão eficiente, como há dois anos, quando Navalny tentou pela primeira vez. Há dois anos. Emocionalmente, não é assim muito fácil as pessoas irem votar nos candidatos recomendados por Navalny, porque na maioria das áreas, não são propriamente aquilo que poderíamos chamar de bons tipos. Portanto, para mim, como eleitor, devo votar em alguém de quem não gosto? Só deverá realmente exercer forte pressão sobre as minhas emoções, alguém a quem respeito. Navalny, pessoalmente, tem esse poder. Se ele estivesse livre agora, e tivesse participado da campanha, assim, anunciando isso, a estratégia dele de voto inteligente, anunciando aqueles candidatos que apela ao povo para votar, nesse caso, ele ter-me-ia convencido a fazer isso, a votar nesses candidatos não ideais. Mas como Navalny não participa, está na prisão, então, eu, eleitor, não o vejo na TV, não o vejo na internet. Tipo... quase me esqueci dele. Portanto, neste caso, é possível que a a pessoa simplesmente não vá, fique em casa, não vá votar. Eles não são os candidatos ideais. Para convencer as pessoas a votarem neles, você precisa de alguém que seja tão popular quanto Navalby. Quando Navalny está ausente, não há outra pessoa com tanto poder de me convencer como eleitor. E então, vou ficar em casa, não vou votar.

Quais vão ser os maiores desafios do próximo governo ou do próximo Parlamento? A recuperação da economia?

Bem, definitivamente, os problemas económicos do país. O problema número um é a diminuição dos padrões de vida, a economia moribunda para ser honesto, esses são os principais problemas, claro, mas sabe, quando existem esses problemas econômicos e diminuição dos padrões de vida, então neste caso, como político, novos problemas e novos conflitos políticos aparecem. Portanto, haverá um aumento cada vez maior, virão mais e mais frequentemente à superfície. Então, haverá muitos desafios novos, tanto políticos, económicos, culturais, sociais, muitos conflitos sociais entre o centro e a periferia, entre o trabalhador e o capital, entre esta elite conservadora e a sociedade que exige a modernização. Portanto, haverá muitos desafios.

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