Ainda nada. Cimeira em Bruxelas mantém-se assintomática

Ao fim de três dias de reunião, os dirigentes europeus ainda não tiveram sucesso, para fechar o plano com que pretende restaurar a economia europeia, em crise por causa da Covid-19.

A cimeira estava marcada para o meio dia, mas o impasse nas negociações obrigou a adiamentos sucessivos ao longo da tarde. O encontro transformou-se finalmente num jantar, que começou às 19h20, hora local, em Bruxelas.

Os problemas não se alteraram muito, desde sexta-feira. E um deles tem até sido agravado. Em concreto, o da dimensão da parcela dedicada aos subsídios a fundo perdido. A proposta da Comissão, apoiada pela França e pela Alemanha, previa que fosse criado um fundo de 500 mil milhões de euros, para distribuir pelos Estados-membros, em subvenções a fundo perdido.

O grupo dos chamados Frugais considera que este montante é demasiado grande. Mas a redução que propõem, para os 350 mil milhões de euros, terá um impacto significativo nos envelopes financeiros nacionais. E, por essa razão, um grupo de países em que se inclui Portugal, mas também Espanha e Itália, consideram que um redução daquela dimensão compromete a capacidade deste plano para responder à dimensão de uma crise sem precedentes, em toda a história da União Europeia.

O primeiro-ministro português, António Costa considera "incompreensível a dificuldade das lideranças europeias em chegarem a um acordo rápido". Perante uma crise que se agrava, o governante afirma que se esta cimeira falhar "será uma péssima notícia para a Europa, um péssimo sinal para todos os agentes económicos e para os europeus".

O primeiro-ministro esteve reunido ao longo do dia com Angela Merkel, com Emmanuel Macron, com o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, e o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez. Mais tarde, organizou um encontro que sentou de um lado os governos das economias mais afectadas pelo impacto da Covid-19, e o intransigente grupo dos frugais, compostos pela Áustria, Dinamarca, Suécia, e Países Baixos, agora com a ajuda da Finlândia.

Mas, ao fim de todos estes dias, o impasse mantém-se. E, a culpa é do "tipo holandês", pelo menos é essa a convicção de Viktor Orban, o controverso primeiro-ministro húngaro, também ele uma figura central nesta cimeira.

Este domingo, fez questão de afirmar que "o acordo não está bloqueado por sua causa". O culpado é outro: "o tipo holandês", ou seja, Mark Rutte. "Porque ele deu início a determinado processo. Eu mantenho-me com a conjuntura, tal com ela está hoje, em relação à regulação em matéria de Estado de Direito, controlo financeiro do orçamento, e todo esse tipo de reformas. Penso que isso está bem", afirmou.

"Mas, eles [os frugais] querem conseguir mais alguma coisa que não é suficientemente bom, do nosso ponto de vista. Por isso, se houver uma ruptura, é por causa deles, não por minha causa. Não gosto de jogos de culpa, mas o holandês é o responsável por toda a confusão que temos aqui", afirmou, num tom pouco habitual em reuniões de alto nível, na União Europeia.

O primeiro-ministro holandês veio a público para tentar dizer que é bom "tipo", garantido que está nestas negociações para ser "solidário" com os países do sul, porém faz depender a sua "solidariedade" de um mecanismo de travão para a libertação de verbas do fundo de recuperação. Ou seja, Mark Rutte pretende que o dinheiro do fundo de recuperação seja dirigido a reformas nos Estados que dependem das verbas, e os desembolsos dependentes de unanimidade no Conselho.

Na prática, qualquer governo fica com poder para boicotar os projectos de outros Estados-membros. Ninguém concorda. Mas Mark Rutte mantém o finca pé desde sexta-feira. A situação está num ponto de tensão tal que, hoje mesmo, a chanceler alemã chegou à Cimeira admitindo que está disposta a sair de Bruxelas, este domingo, sem um acordo.

"Ainda não sei dizer se uma solução será encontrada. Há muito boa-vontade, mas também existem muitas posições, e, por isso, vou trabalhar para [um acordo]. Mas também pode ser que não haja resultado hoje", dizia a chanceler, que, em maio, com o Presidente francês, Emanuel Macron, apresentou um plano a dar luz verde à emissão de dívida com garantias europeias, que é afinal a base da proposta que está agora em discussão.

A aprovação de um montante desta dimensão seria um momento histórico. Até agora, não foi, porém, possível lá chegar. "A vontade de compromisso não nos fará renunciar à ambição legítima que devemos ter", afirmou Macron, podendo ler-se como um aviso aos frugais de que o plano não pode ser incompatível com a urgência e dimensão da crise

Macron mostrava-se, ainda assim, optimista: "Penso que ainda é possível. Mas esses compromissos não se farão com custo para a ambição europeia".

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