Bielorrússia: "Não foi apenas falsificação, houve uma inversão dos resultados"

Alena Vysotskaya Guedes Vieira, bielorrussa, é investigadora na Universidade do Minho (UM). Na TSF explica a dimensão da fraude eleitoral e defende uma maior pressão internacional sobre Lukashenko.

Leciona e investiga no Centro de Investigação de Ciência Política da Universidade do Minho há cerca de dez anos depois de ter passado, ao chegar a este país, pela universidade de Coimbra. Em entrevista à TSF, acredita que não houve apenas uma falsificação dos resultados, mas sim "uma inversão". Svetlana Tikhanovskaya, que entretanto saiu do país para a Lituânia terá ganho claramente. Agora, refere, a oposição procura uma forma clara de demonstrar ao mundo a dimensão da fraude eleitoral cometida pelo regime de Aleksandr Lukashenko: "Para apresentar a realidade, que é muito distante da realidade que está a ser proclamada pelas autoridades bielorrussas. A realidade não só é muito diferente como é exatamente o contrário daquilo que as autoridades bielorrussas dizem."

A investigadora, numa entrevista que a TSF emite esta tarde, depois das 17h00, concretiza a ideia de uma inversão total dos resultados das presidenciais: "Essa percentagem está a ser confirmada pela votação em algumas regiões na e fora da Bielorrússia, em quase todas as embaixadas e pontos de voto, em vários países, talvez com exceção para a Turquia. Não vamos saber a percentagem real, mas acredito que seja mais ou menos essa", acrescentou a professora no Centro de Investigação de Ciência Política da Universidade do Minho.

Considera que a candidata da oposição, cujos resultados oficiais não atribuem mais do que dez por cento dos votos, "designou-se como um símbolo dos protestos, mas não exatamente como líder destes protestos, o que também traz alguma força moral a tudo o que está a acontecer na Bielorrússia. É algo que nem foi coordenado nem planeado por ela, ou sequer preparado por ela ou pelos seus seguidores; foi um movimento que se formou e se desenvolveu com forças que poderíamos designar por forças populares", Alena Vieira destaca a heterogeneidade daqueles que participam nos protestos: "Desde políticos a artistas, passando por jogadores de futebol e informáticos." Há de tudo nas ruas de Minsk e das principais cidades da Bielorrússia. Ou seja, não será a saída de Svetlana Tikhanovskaya que vai influenciar totalmente os destinos do país, mas também não é "retirando a Svtelana que as autoridades do país resolvem o problema. Este não é um protesto que se consubstancia numa pessoa específica". A investigadora universitária entende que a candidata "estava à espera de uma batalha legítima, nos termos corretos, mas não soube prever que ia ser uma batalha tão suja, porque acreditava que conseguia convencer as autoridades a evitar a violência".

A verdade, questionamos, é que o poder político vigente pode argumentar que a candidata saiu do país para a Lituânia porque quis. Alena Vytovskaya discorda: "Eu não consigo acreditar nisso. As pessoas mais próximas dela dizem que ela vai dar explicações, temos que aguardar, penso que nesta altura é muito prematuro dizer que ela saiu porque quis." Mas lembra que o marido de Svetlana (que era, inicialmente, antes de ser banido e detido) continua detido e isso faz com que, qualquer decisão que tenha tomado, não seja livre desse natural condicionamento. Mas, pelos dados existentes, afirma não poder concordar com a tese de que possa ter sido "uma saída puramente voluntária".

Fundamental, tendo em conta o apoio popular que afirma ter Svetlana Tikhanovskaya, vai ser determinar qual o grau de fidelidade - ou falta dela - dos militares ao presidente Aleksandr Lukashenko. O líder bielorrusso tem sabido alegar a influência externa sobre as decisões da Bielorrússia, por saber que os militares, acima de tudo, estão vocacionados para defender a soberania nacional: "Essa é a questão-chave, porque vai determinar o futuro dos protestos na Bielorrússia e não podemos fazer nenhuma previsão neste caso", Lembra o acordo feito há seis anos entre os ministérios da administração interna da Rússia e da Bielossússia e os rumores que agora surgem de que "há influência russa na violência dos protestos não é algo que nós não possamos imaginar, porque existe uma espécie de acordo que permite o reforço militar". E se já houve casos em que os oficiais militares, nalgumas cidades, "mandaram baixar os escudos porque conhecem a população, fazem parte dela, são a população, nós não podemos esperar isso de representantes de um país diferente". Muito será condicionado por aquilo que "as forças armadas realmente pensam do Aleksandr Lukashenko".

A investigadora espera que a União Europeia mantenha e até reforce a pressão sobre o presidente Lukashenko, sendo positivo que a UE esteja "a considerar todas as formas possíveis de apoiar a população bielorrussa e de demonstrar que o regime de Lukashenko não é um regime legítimo" tal como "a população demonstrou nas duas últimas noites". Se as sanções forem agravadas, será importante assegurar que "não vai acontecer nos anos noventa, quando houve um isolamento total da população", defendendo antes medidas que sejam duras para o presidente em funções. Alena Vieira lembra que o país tem atualmente 28 prisioneiros políticos, coisa inédita e a UE deve exercer a influência que, efetivamente, tem sobre o regime de Minsk.

Resiliência parece ser a palavra de ordem em Bruxelas tendo a Bielorrussia como destinatário. Mas para quê e para quem? "Quando a União Europeia está a tentar tornar o país mais resiliente, o que é que exatamente isto quer dizer? Isto merece uma investigação, não é para uma conversa destas, mas é algo que a UE deve considerar seriamente. Como fortalecer a população e os ativistas que saem para a rua em Minsk e noutras cidades, apesar de saberem muto claramente o que vai acontecer, como fortalecer a vontade das pessoas de tornar o seu país melhor, mais livre, mais democrático, isso seria uma boa maneira de fazer aumentar a resiliência no país enquanto política externa europeia."

A investigadora conclui a análise sobre o regime político que vigora no país desde 1994: "Não se pode dar ao luxo de ser um ditadura, por razões de contexto político interno e externo." É Lukashenko um ditador? "Ele sabe que há linhas vermelhas que não pode ultrapassar. Tem de ser menos ditador do que provavelmente queria. Mas é um regime autoritário, sem alguma dúvida. Mas vamos ver como estes protestos acabam para dar uma resposta definitiva a essa pergunta". De uma coisa não tem dúvidas: "o país não vai voltar a ser como era."

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