"Episódios muito estranhos." Orcas em guerra aberta contra barcos em Gibraltar

As águas têm andado agitadas no estreito de Gibraltar: há grupos de orcas a atacar barcos de recreio.

O estreito de Gibraltar, localizado a sul de Espanha, tem sido o palco de um fenómeno que está a deixar cientistas intrigados e velejadores assustados: há grupos de orcas a atacar barcos de recreio nas águas que servem de porta de entrada no mar Mediterrâneo.

Foi no fim de julho, conta o The Guardian, que começaram a ser reportados os primeiros ataques, com um denominador aparentemente comum: os animais chegam junto das embarcações em grupos e tentam pará-las ou erguê-las, mordendo o casco ou o leme dos barcos até o inutilizarem.

Quem sofreu estes ataques mostra um misto de curiosidade e receio. Os ataques acontecem tanto de dia como de noite e sem aviso: quando dão pelos movimentos, já os barcos estão a girar devido à força exercida pelos animais, que acabam por danificá-los ao ponto de terem de ser rebocados.

Pareceu "totalmente orquestrado"

Victoria Morris, bióloga, estava num dos barcos atacados. A 29 de julho o barco em que seguia foi atingido por um grupo que danificou o casco e rodou a embarcação em 180 graus, desativando os sistemas de navegação e o motor. Poucos momentos depois havia bocados do casco a flutuar e a tripulação de quatro pessoas estava à deriva.

O pedido de SOS seguiu para a guarda costeira que, incrédula, perguntava: "Vocês estão a ser atacados por orcas?" Sim, estavam, e o barco ficou incapaz de navegar.

"O barulho era assustador. Estavam a lançar-se contra a quilha, havia um eco horrível e cheguei a pensar que podiam fazer o barco capotar. Havia também um barulho ensurdecedor enquanto elas comunicavam, assobiavam umas às outras. Era tão ensurdecedor que tínhamos de gritar uns com os outros", conta Morris. O episódio pareceu-lhe ser, diz, "totalmente orquestrado".

Ao jornal inglês, uma bióloga marinha da Universidade de Sevilha, que conhece esta população migratória de orcas no estreito de Gibraltar mostrou-se surpreendida. "É de loucos que baleias assassinas arranquem bocados de um casco de fibra de vidro", reconhece, lembrando que conhece estas orcas "desde bebés". Garante que "nunca viu ou ouviu falar de ataques".

As orcas são animais altamente inteligentes e sociais, e o maior animal na família dos golfinhos. É normal, diz a bióloga, que as orcas sigam atrás do leme e até o mordam numa espécie de "jogo" em que "são arrastadas pelo barco". O uso da força para os partirem revela, no entanto, algo novo: stress.

A luta pelo atum

O estreito de Gibraltar é, há muito, território de guerra entre pescadores e orcas e talvez uma cria tenha ficado presa no labirinto de redes e linhas subaquáticas.

"Estes são episódios muito estranhos", analisa Ezequiel Andréu Cazalla, investigador de cetáceos que conversou com Morris, "mas não acho que sejam ataques". Um pouco por todo o mundo, especialistas em orcas mostram-se surpreendidos, reunindo-se na avaliação de que este tipo de comportamentos é "altamente estranho". Além dessa avaliação, e porque estas observações não foram feitas por investigadores da área, são cautelosos na avaliação.

De onde vem, então, o stress que estas orcas parecem estar a sentir? As hipóteses são várias. As orcas de Gibraltar estão em perigo de desaparecer, sendo que restam menos de 50 indivíduos.

Os maiores inimigos são os ferimentos, a escassez de alimento e a poluição, algo que leva poucas crias a sobreviver. Cazalla explica mesmo que o estreito de Gibraltar é "o pior local possível para as orcas viverem": é uma das mais importantes marítimas comerciais e a sua presença nesta porção de água cria um ciclo vicioso que atrai ainda mais barcos para as verem.

O maior perigo é, no entanto, outro: a pesca. Se há razão para estas orcas estarem em Gibraltar é a comida e, em especial, o atum-rabilho, a sua presa predileta. O problema é que este é também um peixe muito valorizado pelos humanos que, em 2005 e 2010, causaram um colapso de tal forma que estas orcas se viram reduzidas a 30 indivíduos.

O atum é um dos principais ativos económicos da região de Cádiz e os pescadores usam uma técnica artesanal que envolve várias redes - a almadraba - para os capturar na primavera. Em julho e agosto, quando o atum sai para o Atlântico, a técnica muda para linhas subaquáticas, com peixe a servir de isco e colocadas no fundo do mar com pedras como pesos.

Ainda assim, entre os pescadores, os piores são os dos barcos de pesca desportiva. E porquê? Porque usam os grupos de orcas para identificar locais onde podem estar atuns. O biólogo marinho ​​​​Jörn Selling explica que, ao adotarem este comportamento, os pescadores desportivos "atravessam os grupos e os seus instrumentos cortam as barbatanas dorsais das orcas".

Há registo, desde 1999, de que dois dos cinco grupos de orcas de Gibraltar aprenderam a roubar o atum das linhas de pesca, deixando os pescadores apenas com as cabeças dos peixes. O risco tomado pelas orcas tem duas dimensões: além de deixar os pescadores furiosos, expõem-nas a lesões causadas pelas linhas de pesca.

"Há duas fêmeas com barbatanas cortadas", diz Selling, sendo que uma delas perdeu, além da barbatana, uma cria. Embora os pescadores não possam fazer muito para evitar estas lesões, há suspeitas de que alguns se vingam das orcas de forma violenta. "Os pescadores odeiam as baleias assassinas", garante Selling. "Veem-nas como adversárias."

Silêncio, orcas a caçar

Ainda assim, estas orcas aprenderam a interagir com a almadraba e as linhas subaquáticas. Há até relatos de um macho que aprendeu a navegar entre as redes para roubar atum há alguns anos. Foi avistado com uma lesão grave e nunca mais foi visto.

O que se passa, então, em Gibraltar? Se estas orcas estão habituadas a este conflito, o que mudou? A resposta está no confinamento causada pela Covid-19.

"Não houve pesca desportiva, não houve caça às baleias ou barcos à vela, nada de ferries e muito menos navios com mercadoria", explica Selling.

A sua teoria é a de que, depois de dois meses de barulho reduzido - "algo que a maior parte delas provavelmente nunca tinha experienciado" - o regresso dos ruídos deixou-as irritadas. A hipótese é pouco plausível, mas estas orcas continuam a caçar atum e, para isso, "precisam de silêncio".

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de