Há sempre um português. E o coronavírus fez com que os de Wuhan se encontrassem

João Pedrosa e Miguel Matos descobriram há poucas horas da existência um do outros. Ambos estão em Wuhan e contaram à TSF como se vive na cidade por estes dias.

Wuhan é, por esta altura, uma cidade isolada do mundo mas é também a casa de perto de duas dezenas de portugueses. Todos pensavam estar sozinhos até que o novo coronavírus fez com que se encontrassem.

Um deles é João Pedrosa, diretor técnico de uma empresa de tecnologia alemã que dá emprego a 600 pessoas. "Há males que vêm por bem, eu estava convencido de que era o único português que vivia aqui", começa por contar à TSF, depois de ter lido notícias portuguesas que lhe mostraram que há, de facto, compatriotas em Wuhan.

Este novo vírus teve origem num mercado de animais vivos, um local que não agrada especialmente a este português. Ainda assim, teve oportunidade de visitar "alguns mercados" destes, mas a presença de "animais vivos e sangue" foram razões para não voltar.

No plano profissional, a empresa para a qual trabalha iniciou um período de férias para o ano novo chinês com final previsto para o dia 31 de janeiro. "Não sei como será após esse dia", reconhece.

"Deram indicações aos trabalhadores sobre cuidados a ter, cuidados de higiene e no sentido de que se restrinja o número de reuniões", diz. Quanto à reabertura da cidade, José Pedrosa não acredita que aconteça "tão rápido".

Esta quinta-feira os habitantes ficaram a saber que os transportes públicos iam ser suspensos, "depois cortaram as estradas e autoestradas". O português desconhece a forma como a situação vai ser resolvida, mas tem uma certeza: não acredita que "mantenham 11 milhões de habitantes sem mantimentos".

Animais em gaiolas

Também em Wuhan está Miguel Matos, treinador de guarda-redes de uma das equipas da cidade. E o mercado onde tudo começou fica a "quatro ou cinco quilómetros" da casa deste treinador.

Nunca entrou nesse local em específico, mas já passou por outros semelhantes e sabe o que se passa no seu interior: "É possível ver animais nas gaiolas à venda, na China é muito normal ver isso. Há peixes vivos, para eles é normal, a nós faz-nos confusão porque, culturalmente, não comemos alguns tipos de animais que eles costumam cozinhar."

Com a cidade bloqueada, a embaixada portuguesa tem contactado os portugueses em Wuhan para transmitir informações e facultar um número de resposta a emergências, disponível 24 horas por dia.

Uma das principais preocupações é a comida mas, por agora, Miguel Matos está descansado porque conseguiu comprar alimentos que dão para "mais ou menos cinco dias".

Não há sopa sem legumes

"Conseguimos comprar alguns produtos enlatados e congelados, já não tivemos a sorte de comprar legumes para fazer uma sopa", lamenta o português. E nem a água da torneira é recomendável.

"Temos de comprar, não se pode cozinhar com ela, só tomar duche." Nem fervida? "Não é aconselhável."

Por agora, no meio de uma cidade com 11 milhões de habitantes, os portugueses tentam manter-se o mais informado possível. "Valha-nos a Internet para vermos a notícia e para estarmos em contacto com a família e amigos em Portugal."

O círculo de Miguel Matos é formado por mais três portugueses que, entretanto, já conheceram mais seis. Por isso, organizaram-se num grupo do WeChat (rede social chinesa).

"Não sabíamos que há mais portugueses aqui. Temos conversado, trocado mensagens e felizmente estamos todos bem." É como se costuma dizer: há sempre um português.

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