"Amante de um homem casado." Série sobre liberdade sexual feminina choca o Senegal

Estreou em janeiro e, desde então, tem gerado uma onda de críticas e indignação. A história, comparada a "Sexo e a cidade", está a abalar os pilares de uma cultura ainda repleta de valores machistas.

As primeiras cenas do episódio piloto foram suficientes para prender milhares de utilizadores. Kalista Sy, de 34 anos, uma jornalista afastada da televisão, não fazia ideia do que estava a fazer quando pesquisou no Google "como escrever um guião". Ou faria? As três milhões de visualizações dão-lhe razão. O reacendimento do debate sobre a sexualidade das mulheres num país maioritariamente muçulmano da África Oriental, também.

Foi como se toda a capital senegalense, Dacar, parasse para ver Marème, a protagonista interpretada por Halimatou Gadji, preparar-se para um encontro com um homem casado. Depois de apontar para as suas calças, a personagem posiciona-se: o corpo é seu e partilha-o com quem quiser. Num país onde se reserva um lugar obscuro à sexualidade feminina, os episódios que representam a libertação iniciaram um movimento em favor da independência.

Depois da estreia, em janeiro, o programa tomou mesmo proporções comparáveis à norte-americana "Sexo e a cidade", conforme conta o The New York Times . E a série abrange quase tudo: do desejo sexual da mulher à violação e assédio, das doenças mentais ao monopólio de poder masculino, da violência doméstica à poligamia. É uma narrativa nova que se conta em território africano que desafia os papéis de género e instiga o empoderamento feminino.

"Prejudicial" à "preservação de identidades culturais"

Mas "Amante de um homem casado" não chegou sem resistência. O regulador estatal afirmou mesmo querer proibir a transmissão da série que considera prejudicial à "preservação de identidades culturais", já que inclui "palavras, comportamento e e imagens chocantes, indecentes, obscenos e ofensivos".

Por outro lado, um grupo islâmico de grande relevo no país da África Oriental, Jamra, ameaçou mesmo organizar uma marcha de protesto contra o programa. Alguns espectadores ficaram igualmente siderados com as cenas de infidelidade.

Também a Netflix, que chegou a território africano em 2016, coloca duas mulheres no centro das suas duas narrativas com mais notoriedade. Kalista Sy, autora da série, revela também ao The New York Times que se cansou de personagens femininas pensadas por homens ou por estrangeiros, desconhecedores da realidade da mulher africana. "Estou a fazer algo muito senegalês", afirmou. "É para o povo senegalense primeiro, depois para o mundo."

O Senegal, país habitado por 16 milhões de pessoas, tem assumido uma postura a que o Presidente, Macky Sall, chama de islamismo "moderado e tolerante". Em público, muitas mulheres são livres para ir à praia, frequentar a universidade e construir uma carreira. Em casa, no entanto, o caso muda de figura, com o homem a assumir a liderança e a poder ter mais do que uma mulher.

O elenco de "Amante de um homem casado" acredita, ainda assim, que a série está a abrir a "cortina" sobre o que realmente se passa na sociedade do país. A primeira temporada chegou ao fim, mas Kalista Sy não tem dúvidas de que a série ainda tem um papel a cumprir, e que, por isso, retornará. Deixa apenas um desabafo de receio: de perder o controlo da produção para os homens, já que agora é a hora da libertação da mulher.

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