"O Brasil vive um caos ambiental"

A ambientalista e líder política brasileira Marina Silva afirmou que o Brasil vive num caos ambiental e que os planos e compromissos do país para combater as mudanças climáticas não serão cumpridos.

O Governo do Brasil "não tem política ambiental, há uma desconstrução da política ambiental que existiu. O plano [de combate] das mudanças climáticas não tem como ser cumprido neste contexto de caos que nós estamos vivendo", disse Marina Silva, considerando que os problemas na Amazónia são sinais de algo mais global.

"É a primeira vez que você tem um ministro [do Meio Ambiente, Ricardo Salles] que é contra a agenda ambiental. Ele opera para desmontar tudo o que existiu da governança ambiental, do licenciamento, das unidades de conservação, da fiscalização e da gestão ambiental brasileira", acrescentou.

O Brasil, signatário do Acordo de Paris para o Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), comprometeu-se a atingir até 2030 o desmatamento ilegal zero na Amazónia e a restaurar 12 milhões de hectares de florestas degradadas.

Uma das advogadas mais conhecidas da causa ambiental, Marina Silva já foi candidata à Presidência do Brasil três vezes, incluindo nas eleições do ano passado.

Nascida numa comunidade pobre do estado brasileiro do Acre, Marina Silva destacou-se no cenário brasileiro quando foi ministra do Meio Ambiente, entre os anos de 2003 e 2008, época em que o país promoveu uma redução considerável da desflorestação da Amazónia.

Para Marina Silva, as políticas implementadas hoje pelo Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, e os discursos feitos por ele, seus filhos e equipa de governo, tem ajudado à destruição ambiental.

"As políticas que estão a ser implementadas e os discursos que estão a ser feitos constituem um verdadeiro estímulo às práticas criminosas que acontecem no país como a invasão de áreas de conservação, retiradas ilegais de madeira, desflorestação ilegal, queimadas ilegais", acusou.

Sobre os incêndios na floresta amazónica, Marina Silva não tem dúvidas em apontar o dedo a Bolsonaro.

"O que está acontecendo é fora da curva. Em todos os anos, em todos os Governos ocorreram problemas de queimadas, mas pela primeira vez nós temos uma situação que supera todas as situações desde que se faz o monitoramento e isto não é por acaso", considerou, responsabilizando a política de desregulamentação que o atual executivo tem promovido.

"Quando você diz que vai acabar com a indústria da multa, que os fiscais têm de parar de entrar nas propriedades, você está dizendo uma mensagem. A mensagem é: o que vocês [desflorestadores] estão a fazer é certo e o que os agentes públicos fazem está errado. Nunca, nenhum Governo [do Brasil], teve coragem de dizer isto", completou.

Nos últimos dias, esta questão tem motivado reações várias, desde o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao Presidente francês, mas Marina Silva defendeu que o mais importante é a pressão interna da sociedade civil brasileira.

Esta semana, Marina Silva publicou um artigo de opinião, em que comparou a destruição da maior floresta tropical do mundo com o holocausto nazi na Segunda Guerra Mundial.

"Naquele texto eu, metaforicamente, estava dizendo que os sinais estão a ser dados para uma destruição total" da Amazónia. "Não é [isto que ocorre] ainda. Os sinais são dados para que possamos tomar as providencias. No caso do holocausto dos judeus todos os sinais foram dados. Alguns acovardaram-se, outros foram coniventes, outros operaram para que acontecesse", argumentou, em declarações à Lusa.

"Não podemos repetir nenhum tipo mais de banalização do mal, de destruição total. Ainda mais com uma parte da criação - eu sou uma mulher de fé -, que é responsável pelo equilíbrio do planeta estando preservada", afirmou Marina Silva.

A destruição de parte substancial da Amazónia "pode acionar outros gatilhos como o aumento das temperaturas" e isso "seria um processo de colapso sistémico" que "não pode acontecer", concluiu a ambientalista.

O número de incêndios no Brasil aumentou 83% este ano, em comparação com o período homólogo de 2018, com 72.953 focos registados até 19 de agosto, sendo a Amazónia a região mais afetada.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta.

Tem cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (pertencente à França).

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