Países que reportam menos casos? Então abram alas… à Coreia do Norte

A Covid meteu-se na política, exigiu nervos de aço à diplomacia, serviu-se das restrições às viagens aéreas como argumento de competição turística e política e nem jornais de referência escaparam.

Está atualmente em discussão pelos governos dos 27 uma proposta da Comissão Europeia que pode impedir passageiros provenientes dos Estados Unidos, Brasil e Rússia de aceder a território da União Europeia, por serem países considerados não seguros em matéria de deslocações internacionais, atualmente, por causa da pandemia. Está o governo português de acordo com a proposta do executivo da UE?

Em entrevista à TSF, cuja segunda parte pode ser ouvida este sábado no programa O Estado do Sítio depois das 12 horas, o ministro dos Negócios Estrangeiros responde, antecipando a pergunta seguinte, a da restrição a viagens para Portugal por parte de alguns países e argumentando com o facto de vários países não estarem, nem de perto nem de longe, a fazer a mesma quantidade de testes que Portugal, tendo em conta a densidade populacional: "Se eu não testar os casos não são conhecidos. Se eu testar e o teste for positivo é porque o caso existiu, mas se o caso existir e eu não testar o caso não é registado."

Os casos não reportados e a Coreia do Norte

Augusto Santos Silva devolve a pergunta. "Se a União Europeia usasse esse mesmo critério, esse só e apenas - o do número de casos positivos por cem mil habitantes - para abrir as suas fronteiras externas, é capaz de me dizer o meu amigo qual seria o primeiro país a quem a UE abriria as suas fronteiras? A Coreia do Norte, que não reporta nenhum caso." Aos microfones da TSF, quinta-feira à tarde em Lisboa, o entrevistado dá conta do sorriso que a resposta provoca ao entrevistador. O país de Kin Jong-un não reporta nenhum caso, mas peritos da ONU dão conta de que a pandemia está a agravar a já ampla carência de alimentos e má nutrição entre a população. Um país onde a fome é real. O Programa Alimentar Mundial estima que mais de dez milhões de pessoas, ou seja, quarenta por cento da população, necessitem de ajuda alimentar. Pyongyang não reporta casos mas não enjeitará ofícios de bons amigos: o presidente chinês já ofereceu ajuda ao país mais fechado do mundo para lidar com a pandemia. Aliás, relatava a BBC a 9 de maio, que Xi Jinping estaria assim a responder a uma mensagem do líder norte-coreano.

Um novo irritante

As restrições - ou o não levantamento delas - a voos de e para Portugal, é uma questão que está a irritar profundamente o governo português. Na sexta-feira, na primeira página do El País, lia-se que "Portugal ordena o confinamento de três milhões de lisboetas". A expressão "confinamento" já tinha provocado a ira do primeiro-ministro, segundo relatos da revista Sábado, na reunião desta semana no Infarmed.

Uma reportagem que dá o dito por não dito

Hoje, e após queixa do gabinete de Augusto Santos Silva (dizendo que o título na primeira página do El País era "totalmente falso", acrescentando o Palácio das Necessidades que "lamenta profundamente que um jornal com o prestígio e do El País publique uma tal falsidade" e esperando que o jornal procedesse à respetiva correção) e depois de promessa da sua direção de que iria analisar o assunto, o diário espanhol EL País faz um exercício jornalístico ao estilo de mea culpa, ao dedicar a sua página 24, com chamada à primeira página, a um "Passeio por uma Lisboa limitada mas sem confinar". No interior do jornal, uma reportagem assinada por J.Martin del Barrio, que titula um "passeio tranquilo por Santa Clara, o bairro com mais restrições de Lisboa". E ainda uma breve em que o mais lido jornal espanhol esclarece, sobre a situação na região da capital portuguesa: "calamidade, contingência e alerta, mas não confinamento". Quarta-feira da próxima semana, os vizinhos ibéricos reabrem fronteiras. Entre si, Portugal e Espanha estarão novamente desconfinados. Ainda que limitados.

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