"Passado ignorado em silêncio." Ministério Público Federal alemão dominado por ex-nazis após a II Guerra

Entre 1953 e 1959, 75% dos funcionários públicos do Ministério Público Federal haviam sido membros do Partido Nazi de Adolf Hitler.

A grande maioria dos magistrados em funções após a II Guerra Mundial no Ministério Público Federal alemão, uma das instituições judiciais mais importantes, eram ex-nazis, revelou um relatório apresentado nesta sexta-feira.

"Na cena do palco, juristas altamente competentes (...) e por trás das sentenças de morte e das leis raciais em que estiveram envolvidos", resumiu a Secretária de Estado do Ministério da Justiça, Margaretha Sudhof, insistindo nas "contradições perturbadoras para as quais o país há muito permaneceu cego".

No relatório com mais de 600 páginas intitulado "Segurança do Estado durante a Guerra Fria", o historiador Friedrich Kiessling e o advogado Christoph Safferling concluirão que entre 1953 e 1959, 75% dos funcionários públicos do Ministério Público Federal haviam sido membros do Partido Nazi de Adolf Hitler.

Em 1966, entre os promotores federais responsáveis por processos criminais, dez em 11 tinham os seus cartões no partido NSDAP, revelam os autores do relatório encomendado no final de 2017 pelo líder do Ministério Público sediado em Karlsruhe (sul- oeste), Peter Frank.

E foi só em 1992 que a Procuradoria finalmente se afastou de seu passado com a saída do último promotor envolvido no regime nazi.

"Não houve rutura, ou mesmo uma rutura consciente com o passado nazi" dentro do Ministério Público Federal, concluem os especialistas.

"O passado nazi foi reprimido, foi ignorado em silêncio", acrescentou Sudhof durante a apresentação do relatório, acrescentando que "a justiça e o governo também têm lutado para enfrentar sua história".

Na Alemanha, o Ministério Público Federal é uma das autoridades judiciárias de maior prestígio, competente em casos de terrorismo e espionagem.

Com mais de uma centena de promotores é "a figura central na luta contra o terror", lembram os autores do relatório, destacando o seu papel ainda mais predominante desde os atentados de 11 de setembro de 2001 e o aumento da ameaça terrorista islâmica.

Para apoiar o seu trabalho, os investigadores conseguiram ter acesso aos arquivos classificados como secretos ou confidenciais desde o final da Segunda Guerra Mundial. Nos últimos anos, uma série de pesquisas históricas trouxe ao de cima a extensão sobre o funcionamento do Ministério da Justiça.

A pesquisa mostrou que o número de ex-nazis no ministério não diminuiu depois da guerra, mas aumentou na década de 1950.

Esta presença massiva é explicada em particular pela necessidade de recorrer a executivos experientes para reorganizar o sistema judiciário da Alemanha Ocidental.

Além disso, as prioridades dos Aliados, vitoriosos em 1945, foram rapidamente viradas de cabeça para baixo em face da ameaça comunista. Depois de terem procurado 'desnazificar' no imediato pós-guerra, viram a necessidade de reconstruir um país em ruína.

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