O contraste da China rural e edificação das grandes cidades
Internacional

Uma "nova era" na China. "A forma como as cidades foram construídas gerará um problema na próxima década"

As cidades avançam sobre as áreas rurais chinesas a um ritmo vertiginoso. Num par de décadas, o solo chinês, outrora verdejante, passou a concentrar grande parte dos maiores centros urbanos no mundo. Boris Swartzman contou a história dos que ficaram perdidos pelo caminho.

Guangzhou (Cantão), em Guandong, no Sul da China, é um lugar de multidões, de negócios férteis, de estradas que fazem brotar, como árvores, arranha-céus e outdoors que piscam como pirilampos, entre a neblina de humidade e fumo das grandes fábricas. Não muito longe da terceira maior cidade chinesa, Boris Swartzman encontrou rostos do abandono maciço, lugares que o tempo engoliu com uma fome montanhosa.

O fotógrafo francês viveu na República Popular da China em criança, fala mandarim fluentemente e documentou a evolução da sociedade chinesa desde 2000, mas a fotografia não desvendava o tamanho do apetite e a rapidez com que as cidades têm invadido o espaço natural dos que vivem da terra. Nessa procura, Boris Swartzman chegou a fazer um doutoramento em Sociologia, mas concluiu que tanta literatura não se adequava à compreensão da realidade, daquela realidade. "Sempre me chocou a rapidez com que a China tem conduzido a urbanização. Depois de documentar este fenómeno durante mais de dez anos, procurei uma forma de contar a forma como a China rural está a mudar. As filmagens eram o meio-termo entre o texto e a imagem."

Foi assim que surgiu um filme, como uma denúncia. "A New Era" ["Uma Nova Era"] contém o pó da destruição e traz muito poucas promessas. "Fotografei a vila antes da demolição. Quando voltei, vi que muitas daquelas pessoas continuavam lá, e consegui contar a história de um grupo pequeno de habitantes de uma forma metafórica." Boris Swartzman conta à TSF que o fenómeno não é único: "Até o fim dos anos 1980, a maior parte da população chinesa - cerca de 85% - vivia em zonas rurais. Apenas uma parte muito pequena dos habitantes vivia nas cidades."

"A primeira fase passou pela demolição das cidades e pela sua reconstrução, mas as cidades começaram a crescer muito rapidamente. No segundo estádio de urbanização, as cidades começaram a progredir e a absorver as zonas rurais, com vilas muito pequenas a desaparecerem." O progresso, acentua com as suas palavras e filmagens, não permitiu um infinito de novas possibilidades. Pelo contrário, causou incontáveis e irreparáveis perdas, salienta o cineasta. "Nas zonas rurais foram surgindo pequenas cidades que progressivamente se tornaram maiores. Foi este o processo durante os últimos 30 anos. Cinco milhões de pessoas perdem as suas terras anualmente."

Num dia, as terras, as plantações, a roupa a secar. No outro, os prédios e as buzinas, a mudar-lhes o espírito do lugar. "Não foram os habitantes que migraram para as cidades, foram as cidades que avançaram sobre eles. Foram forçados a urbanizarem-se, e nós não falamos muito disso, apenas reconhecemos a migração da gente que vive no campo e vai para as grandes cidades."

Para Boris Swartzman, esta "nova era", célere e profusa, ilustra a reinvenção chinesa das últimas quatro décadas. "Este pequeno grupo de habitantes representa o que está a acontecer em todo o território chinês", analisa.

"É muito difícil de documentar, porque as vilas são tão pequenas que não sabemos sempre o que se está ali a passar à medida que vão sendo engolidas. O processo é complicado porque o sistema basilar das zonas rurais da China foi herdado do período de comunismo responsável pelas comunidades agrárias. Estas vilas têm uma espécie de tutela própria e autogovernam-se." Por isso, aldeias e vilas são convertidas através de métodos de desagregação, explica o realizador francês. "Se tirarmos a casa de um aldeão, estamos a retirar terra e riqueza a toda a área. Por isso, isso é feito de uma só vez: são tiradas todas as casas e a zona torna-se urbana. Quando a zona é urbanizada, perdem a estrutura política coletiva. Passa a haver apenas indivíduos que têm a sua própria casa e já não podem protestar enquanto grupo."

"Para o Governo chinês, é importante respeitar este processo, já que estas comunidades são bastante unidas e autónomas. É importante quebrar a autonomia para poderem controlar a população." O alerta de Boris Swartzman tem o som das derrocadas mas também do uivo ambiental, com o meio natural a ressentir-se das mudanças. "Penso que a forma como as cidades foram construídas gerará um problema durante a próxima década. Há diferenças entre o que a lei permite fazer e o que é feito no terreno. Muitas vezes, justificam dizendo que não se tratava de área rural mas de um parque, porque todos os habitantes plantavam árvores. Isto poderá contaminar as águas e devastar áreas verdes. Os edifícios construídos também são muitas vezes pouco seguros e ao fim de alguns anos dão problemas."

Boris Swartzman, que durante 20 anos viajou para território chinês para colher memórias destes tempos, assinala que "há projetos como este em toda a China, com as autoridades locais a tentarem fazer dinheiro com a venda dos terrenos dos locais", e constata que se trata de "um país muito grande com muitas situações por regularizar".

Tradição vs. Modernização

"A tradição poderia ser combinada com a modernização, não há contradição entre as duas, mas a modernização tem sido feita em oposição à cultura tradicional e ao mundo natural. Se quisessem, podiam tornar a China o país mais orgânico do mundo, mas não escolheram esse caminho." Sem as pessoas no centro das preocupações, a China é cada vez mais uma selva urbana, dada a ausência de ordenamento. Os habitantes rurais, empurrados para os grandes centros, não são, no entanto, agentes passivos e alheados, conforme conta o cineasta, satisfeito por poder plasmar em obra o grau de conhecimento do povo chinês. "São pessoas que têm pontos de vista válidos sobre o que deve acontecer ao seu país. Os espectadores que veem o filme ficam surpreendidos porque não sabiam que os habitantes da China rural tinham tanto a dizer..."

"O regime comunista fez um bom trabalho na educação, o que permitiu que, apesar de as zonas pobres serem realmente pobres, na China toda a gente saiba ler. Nestas vilas, no meio do nada, quando lhes digo de onde venho, os habitantes sabem quem é o Presidente de França e o que ele disse há dois dias. Eles são politicamente conscientes." Apesar de indefesos perante um sistema governativo central que desrespeita várias normas, os cidadãos da China rural "não estão perdidos nas suas lutas, eles sabem muito bem o que está a acontecer, mas não têm direitos salvaguardados".

Perdem a forma tradicional de viver e as estruturas políticas que os suportam, e, no processo, "ficam desesperados". Boris Swartzman acompanhou famílias cuja vida foi profundamente alterada e não tem dúvidas de que saíram a perder, mesmo diante das promessas vazias das grandes cidades. "Mesmo que trabalhem por 20 anos numa fábrica de têxteis em Xangai, não são considerados residentes, continuam a ser considerados habitantes rurais", justifica.

"O que acontece na China é extremo, mas o que acontece com estas pessoas é tão universal que todos conseguimos sentir empatia. Estas histórias acontecem em todo o território. Este é o meu tributo a esta parte do país que está a desaparecer." O primeiro filme de Boris Swartzman estará em exibição no Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela, a partir de 10 de outubro e até 17 de outubro, em Seia.

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