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Anselmo Crespo
Anselmo Crespo

A morte não espera pela cura e a economia não espera pelos burocratas

O conceito de "risco de vida" é, nos dias que correm, muito mais amplo do que podemos imaginar. Ele não se aplica apenas aos infetados com o novo coronavírus. Há um grupo de risco, muito mais alargado, que, tendo a sorte de escapar à Covid-19, pode não sobreviver a um outros vírus, com poderes igualmente letais: o vírus do Estado, dos bancos e dos burocratas. E, nesse grupo, estamos todos. Os doentes e os saudáveis.

Mário Fernando
Mário Fernando

A carta que eles deviam ter lido

Numa carta aberta divulgada na passada semana, o presidente da Luxembourg Sports Press ironizava ao dizer que "o COI ainda acredita em milagres". Petz Lahure perguntava: "De quem nos estamos a rir? Dos desportistas e das desportistas? Dos amantes do olimpismo ou das vítimas da pandemia?". E concluía de forma contundente: "Esqueçam o dinheiro, lembrem-se dos valores do olimpismo e assumam as vossas responsabilidades (...) Adiem os Jogos de Tóquio o mais depressa possível. O Barão de Coubertin vai agradecer-vos".

José Cutileiro
José Cutileiro

Num canto do Universo

A seguir ao terramoto de 1755, o Marquês de Pombal tomou três medidas capitais: mandou enterrar os mortos, tratar os feridos e fechar os portos. Não muito diferente do que fazemos, quase três séculos depois, com a calamidade que coube ao mundo inteiro - trazida pelo Corona virus. O Marquês, por razões políticas, acrescentou depois medida diferente, sem equivalente contemporâneo. Mandou organizar Auto de Fé em que foi queimado vivo o Reverendo Malagrida, velho jesuita que declarara ser o terramoto castigo de Deus por Lisboa não ser suficientemente católica - e, em efígie, o Cavaleiro de Oliveira que declarara o contrário mas vivia prudentemente em Londres.

Paulo Baldaia
Paulo Baldaia

Salvar-se para merecer ser salvo

O negócio da comunicação social, que já estava em crise, vai sofrer de modo particular com a quase paralisação da economia, provocada pela pandemia do novo coronavírus. Não podemos ficar indiferentes ao facto desta machadada atingir de forma muito dura um setor que é crucial neste combate e que mantém os seus custos, mas que está a perder grande parte das suas receitas. Nunca os jornais, rádios, televisões e os seus online tiveram tanta audiência e nunca a informação rigorosa foi tão necessária. Quando a economia para, as receitas publicitárias são as primeiras a desaparecer.

Anselmo Crespo
Anselmo Crespo

A guerra dos dias infinitos

Onze de março de 2011. A terra começou a tremer com tanta força a 130 quilómetros da costa leste do Japão que abalou uma ilha inteira. Se o sismo não deu aviso prévio a quem teve de fugir para a rua sem olhar para a destruição que ficava para trás, todos os alertas de tsunami que se seguiram não evitaram uma destruição ainda maior. Milhares de mortos. Milhões de feridos. Uma economia ferida de morte. Um país que, nove anos depois, ainda tem chagas abertas à espera de cicatrizar.

Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes

A nossa emergência é testar, testar, testar

Não conhecemos ainda os contornos exatos deste Estado de Emergência, e é pena. Porque os portugueses não têm como saber das subtilezas jurídicas e procedimentais da sua aprovação, e ficaram ontem ser perceber ao certo que tinha mudado, acordando hoje sem saber o que devem fazer. Teria sido preferível que tudo tivesse ficado esclarecido ontem, diminuindo a ansiedade e a confusão - dando mensagem de firmeza e clareza, que continua a faltar.

Inês Cardoso
Inês Cardoso

Decidir sobre o medo

Vivemos tempos de incerteza. Uma pandemia sem precedentes, causada por um vírus sobre o qual os cientistas têm ainda tanto desconhecimento, levanta inevitáveis dúvidas sobre as melhores abordagens de prevenção e combate. A incerteza causa compreensível medo. Um medo coletivo que tem suscitado constantes exigências de medidas. Pede-se tudo e já. Queremos conter as transmissões, travar a curva ascendente, combater e vencer a assustadora epidemia. Nem sempre temos paciência para ouvir a fundamentação técnica de cada opção e perceber claramente que efeitos e objetivos poderemos atingir com as decisões que tomamos.

Rodrigo Tavares
Rodrigo Tavares

Nós e o Mundo Depois do Vírus

O nosso medo mais arrebatador e primário é o da morte. Para o superar, construímos arquiteturas de proteção física, segregamos a diferença, etiquetamos pessoas e deixamos legados culturais e genéticos que sobrevivam ao nosso óbito. São os caminhos para domesticar os nossos temores e permitir que, na medida do possível, consigamos encontrar ordem no meio dos instintos. A nossa aparente consciência de controle é, contudo, afetada quando somos alertados para a imprevisibilidade da morte. O ébola estava confinado a algumas regiões de África. Longe. O Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) que causa a SIDA tem mecanismos de transmissão perfeitamente conhecidos. Domínio. A varicela matou milhões durante 3.500 anos, mas foi erradicada na década de 1980. Vacina. Mas o COVID-19 suscita um tremor animalesco principalmente porque é imprevisível e global. A taxa de mortalidade é muito baixa, mas nós seres humanos não sabemos conviver com a falta de controle. A nossa insegurança faz com que sejamos mais sensíveis ao alarmismo do que à matemática.

Pedro Tadeu
Pedro Tadeu

Quem combate o vírus da maldade?

A forma como os portugueses estão a reagir à ameaça do coronavírus mostra o melhor da nossa sociedade mas, também, infelizmente, evidencia o lado negro da maneira como nos relacionamos e, até, da maneira como nos organizamos: há uma maldade irresponsável que vem à tona, de forma muitas vezes surpreendente, capaz de destruir o bom senso coletivo, a vontade de cada um de ser solidário com os outros, o respeito pela prudência e pelo cuidado individual que, em nome de todos, a hora exige.