A Democracia dos EUA e as eleições de 2020

As eleições dos EUA são sempre uma aventura. De quatro em quatro anos seguimos pela noite fora as contagens dos votos para a Casa Branca, para a Câmara dos Representantes e para um terço do Senado. A enorme heterogeneidade entre os estados e as suas regras assumem uma importância especial ao longo de uma noitada e ficamos vidrados no que vai acontecendo no Ohio ou na Pensilvânia.

O ano de 2020 não fugiu à regra em termos de emoção. Foi a jogo a Administração Trump e a sua agenda externa e, em especial, doméstica. As previsões que apontavam para uma vitória folgada do Partido Democrata falharam rotundamente. O processo eleitoral está a ser renhido e ainda não terminou. Mesmo na eleição considerada mais acessível, a da Câmara dos Representantes, o Partido Democrata não conseguiu um ganho convincente. Na verdade, sabe a pouco.

Mas é, sem dúvida, a corrida eleitoral para saber quem será o próximo Presidente dos EUA que tem dominado as atenções. Apesar de não sabermos ainda o desfecho, há duas conclusões que podemos retirar. Do lado Republicano, é manifesto que a base eleitoral de Trump continuará a determinar o rumo deste partido. Na verdade, os herdeiros do Partido de George Bush ou de John McCain têm a sua tarefa ainda mais dificultada. Mesmo que Donald Trump não seja reeleito, os seus apoiantes e o seu estilo continuarão de boa saúde nas hostes republicanas.

Do lado Democrata, a tarefa também não será fácil. Se Joe Biden se tornar o próximo Presidente dos EUA a sua missão principal será a de sarar as feridas internas. Pela sua história de vida e pelo seu temperamento sabemos que Biden irá fazer tudo para reconciliar os democratas e os republicanos. Resta sabermos se é possível agregar estas duas «sociedades» tão divididas. Aliás, a preocupação de Biden tem sido evidente nas suas declarações. O candidato democrata apela à esperança, mas também à tranquilidade e o contraste com o seu opositor não pode ser maior. Mas se Biden não vencer a Casa Branca a ala mais à esquerda do Partido Democrata não deixará fugir a oportunidade de se afirmar e de condicionar escolhas futuras.

Por último, temos as declarações de Donald Trump sobre fraude e recurso aos tribunais para evitar que «a vitória seja roubada». O comportamento é vergonhoso. A linguagem e as acusações graves encaixam que nem uma luva na narrativa que Trump tem vindo a construir ao longo de vários meses. Introduzir a dúvida neste processo eleitoral tem e terá impacto na própria legitimidade da democracia dos EUA. Sobre isso não tenho dúvidas.

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