A encruzilhada do PSD

Nunca nestes 48 anos de democracia o PSD enfrentou uma conjuntura tão difícil, desafiadora e imprevisível.

No pós-Cavaco, ou seja, nos últimos 27 anos, o PSD só foi governo durante sete anos e meio. E sempre em coligação com o CDS. Guterres, Sócrates e Costa, juntos, no final desta legislatura, terão governado 24 anos. Nada que devesse preocupar os social-democratas, porque a história política ensina-nos que a alternância tem sido constante. A governos do PS, seguem-se governos do PSD. Será nisso que pensam os dois candidatos à sucessão de Rio. Que depois de Costa, o poder cíclico lhes cairá no colo, mais por demérito e cansaço da governação socialista do que por méritos próprios.

Nada mais errado, como demonstraram as eleições de 30 de janeiro último. O CDS, parceiro de (quase) sempre, desapareceu. E o PSD viu - e permitiu, como se fosse um rei pasmado - dois novos partidos de deputado único tornaram-se grupos parlamentares mais robustos que os do PCP e BE. Que entraram pela direita, ou pela não esquerda, disputando um espaço que o PSD deixou vazio. Sozinho, abandonado, vulnerável e disponível.

Pela primeira vez na sua história, daqui a quatro longos anos, o PSD terá adversários não só à esquerda mas nesse largo espectro de "não socialistas", agita repartidos por populistas e liberais. O partido que se afirmava mais interclassista, dinâmico e transversal da sociedade, perdeu parcelas do seu eleitorado, porque não o soube renovar. Tem hoje um eleitorado mais velho e conservador, mais rural e sem peso, mais estagnado e menos dado a ruturas. Ou "reformas". O partido de Sá Carneiro e Balsemão, que era "humanista, reformista e social democrata", perdeu se numa discussão de identidade, numa permanente alteração de rumo, num debate ideológico que apenas interessa aos adversários à esquerda.

O PSD deixou de ser útil à maioria dos portugueses, perdeu dinâmica social, capacidade de renovação e de abertura, enquistou-se nos 28% mínimo garantido e não tem sido capaz de captar o eleitorado flutuante que, desde sempre, faz e desfaz maiorias e decide primeiros-ministros.

Rio contribuiu para isso. Renegou o legado de Passos Coelho - que, mesmo sem governar pela segunda vez, ganhou eleições - quis puxar o partido para o centro e esbateu as diferenças que o separam do PS. O eleitorado deu-lhe a resposta, como Costa fez questão de lhe lembrar, no debate do Programa de Governo.

Montenegro ou Moreira da Silva, quem quer que ganhe a eleição tem, primeiro, de se afirmar no partido.

Mas a encruzilhada a que chegou o PSD, cercado por um PS majoritário e autoritário, e dois partidos à direita a disputarem o mesmo espaço, tem de escolher o caminho certo se quiser, um dia, voltar a governar. Mais importante do que promessas, programas de governo, governos sombra ou oposição a sério, o PSD deve pensar para que serve e a quem pretende servir. Se não fizer esta reflexão, se não encontrar esta resposta e se não perceber que quando se chega ao entroncamento, é fundamental conhecer o destino, vai continuar a ser um partido virado para si próprio, autofágico e a triturar líderes. E, como está à vista desde 1995, isso não ganha eleições, não reforma o país e não chega para afirmar a social-democracia.

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