A guerra colonial ainda não acabou

A crença de que Portugal é um país seguro e pacífico tem inibido o debate sobre as vísceras bélicas do nosso passado recente. Entre 1961 e 1975, cerca de 1 milhão de jovens portugueses lutou na guerra colonial e, para a vasta maioria, foi a experiência individual mais avassaladora das suas vidas. Depois disso houve casamentos, filhos e netos, conquistas profissionais e outros momentos marcantes, mas os anos da guerra em África foram o ferrete mais quente.

Nas décadas de 1960 e 1970, a maioria dos jovens no interior não tinha consciência da totalidade territorial de Portugal. Vivia-se toda uma vida até ao limite físico do olhar, apoiado na agricultura de subsistência e em famílias pós-paleolíticas onde abundavam os filhos e se rachavam couratos, sardinhas secas e fatias de pão quente. Para esses milhões de jovens imberbes, uma visita ao Terreiro do Paço era o encontro com o fascínio. O poder conviver com portugueses de outras paragens gerava um ardor intimidatório. Ir lutar para África? Era a soma ilimitada de tudo isso.

Todos os que embarcaram nunca mais voltaram. Os que regressaram às suas famílias eram diferentes daqueles que se tinham despedido delas.

E Portugal nunca discutiu, verdadeiramente, este abalo psicológico. A experiência de ver a morte e de matar deixa um rastilho traumático. Mesmo quando o ato é praticado sob a mão protetora do Direito e do Estado e exercido num contexto grupal legitimador, a culpa não se esvai. A maioria dos nossos pais, 50 anos depois, continua a não conseguir contar abertamente a sua experiência individual com a morte. Nem à família, nem a quem lhes possa prestar apoio terapêutico.

Aquele milhão de jovens afetou a vida de cerca de seis milhões de familiares diretos, segundo a Liga dos Combatentes. Ainda que não haja nenhum estudo definitivo (como é que é possível?) estima-se que 100-140 mil combatentes sofram de stress pós-traumático.

A maioria dos filhos e netos de combatentes, como eu, só tem acesso à parte colorida da guerra. Os longos almoços anuais do batalhão, os repetidos episódios de companheirismo entre soldados, a excessiva cromatização dos pôr-de-sol tropicais. Dezenas de anos depois do regresso, as histórias têm uma mórbida proximidade.

Mas temos que enfrentar a parte desafortunada da guerra. A face mais notória são os 9 mil que pereceram em batalha, os 30 mil feridos e os 14 mil deficientes físicos. Mas temos que cavar mais fundo: o persistente racismo na sociedade portuguesa, o paternalismo da nossa diplomacia com os PALOP, o jeito duro e desprovido de afeto com que se educaram milhões de filhos e a vulnerabilidade ao sofrimento emocional tanto dos combatentes quanto dos seus filhos e esposas. Os efeitos adversos também são visíveis em Angola, Moçambique e na Guiné Bissau, com filhos ​​​​​​​mestiços deixados para trás e a discriminação de que foram alvo milhares de africanos que lutaram com o exército português.

O novo Estatuto do Antigo Combatente, promulgado esta semana, é um passo na direção certa. Poderíamos criticar a tardeza insensível do gesto, mas, por ora, vale reconhecer a importância da nova lei, que prevê a atribuição de diversos novos benefícios sociais e financeiros, além da inscrição dos combatentes como Titulares do Reconhecimento da Nação. Acho que o meu pai vai gostar, um dia, de ser velado com a bandeira nacional - um direito oferecido pelo novo Estatuto.

Mas temos que esgaravatar os nossos traumas. O silêncio não cura. Eu, filho de um combatente, sou um herdeiro da guerra, apesar de nunca ter segurado uma arma. São milhões os portugueses na mesma situação. O trauma de um conflito armado leva várias gerações para ser curado e é um processo que deve ser estruturado e proativo. Países como o Canadá, Austrália, Alemanha, Chile, África do Sul e tantos outros, com um passado de violência ou de segregação, criaram Comissões de Verdade e Reconciliação. Em Portugal não podemos cair na armadilha da negação.

*Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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