A noite em que todos perderam, sobretudo nós

A taxa de abstenção destas eleições europeias - quase 70% - é uma tragédia para a democracia que deve fazer soar todas as campainhas, em todos os partidos, em todas as instituições e, sobretudo no espírito de todos os políticos. Não foi o calor, nem a praia que afastou os eleitores das urnas. Foram os partidos e os que os representam que criaram as condições para que apenas 30% decidam o futuro da Europa e de Portugal.

As causas são várias. Campanhas eleitorais que continuam a ser feitas como se ainda estivéssemos na década de 1980, completamente desfasadas da realidade, que nada esclarecem, nada aproximam, pelo contrário, só criam uma rejeição ainda maior dos cidadãos em relação à política. Candidatos que insistem em calcorrear ruas vazias rodeados de jotas, que percorrem feiras e mercados à procura de um momento engraçadinho para as televisões e que caem sistematicamente no ridículo. A forma como se fazem campanhas eleitorais é uma das reflexões mais urgentes que os partidos políticos devem fazer. Bem sei que há quem queira juntar a esta reflexão a comunicação social, e não digo que os jornalistas não tenham também que a fazer. Mas lembro que não são os jornalistas que pedem aos candidatos para andarem de bicicleta.

Há uma outra grande reflexão a fazer, esta de substância e que é a mais importante de todas: a mensagem política dos partidos - sobretudo os tradicionais - está a criar uma rejeição cada vez maior no eleitorado. Não é que ela não chegue às pessoas, porque chega. As pessoas é que já não a querem ouvir. E não é estranho que assim seja. Não se pode estranhar a queda do PSD e do CDS, quando estes dois partidos não conseguem afirmar qualquer alternativa para o país. Quando fazem uma campanha de casos e de guerrilha, em vez de apresentarem propostas, ideias e formas de as implementar.

Coisa parecida se pode dizer sobre o PS que, apesar de não ter ganho por poucochinho, também não ganhou por muito. Um fenómeno cada vez mais comum, um pouco por toda a Europa: quem ganha, já não o consegue fazer com votações expressivas, nem com grandes diferenças face aos principais adversários. O discurso hermético, as propostas velhas, ultrapassadas e, tantas vezes vazias, juntamente com uma campanha que assumiu tantas vezes contornos patéticos, ajudam a explicar porque é que o PS, face a adversários tão debilitados, não conseguiu mobilizar o eleitorado e ter uma vitória esmagadora nestas Europeias.

Em sentido contrário, é a novidade e o pragmatismo da mensagem dos pequenos partidos - como o PAN, por exemplo -, que está a tornar a dispersão de votos numa realidade cada vez mais frequente. Quando a mensagem é clara e, sobretudo, quando as propostas são feitas a pensar na vida quotidiana das pessoas, elas acabam por se identificar.

Os chamados partidos grandes perderam essa capacidade. E, ao perdê-la, estão a abrir espaço a novos partidos que nuns casos são uma lufada de ar fresco na política, mas noutros são um escancarar de portas aos populismos, aos radicalismos e aos muitos que andam por aí à espreita para destruir a democracia.

Tudo somado, o grande vencedor destas eleições não foi o PS, não foi o Bloco, nem tão pouco o PAN. Quem venceu estas Europeias foi a abstenção. O que faz com que a grande derrotada tenha sido a democracia. Ou seja, todos nós.

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