A violência de Donald Trump

Eu ainda não estou recomposta do primeiro debate entre os dois candidatos à Presidência dos EUA. Na verdade, do debate que não chegou a acontecer. Mesmo sabendo que o actual inquilino da Casa Branca iria deixar bem vincado o seu estilo, Donald Trump conseguiu superar as minhas expectativas em matéria de insulto e jogo sujo.

A sua táctica foi muito clara: impedir que fossem debatidos os seis temas que Chris Wallace, jornalista da Fox News, tinha escolhido. Se pensarmos apenas nesta perspectiva, sem dúvida que Trump conseguiu chegar ao fim do «debate» sem ter que aprofundar as questões que são relevantes para o dia-a-dia dos norte-americanos. Joe Biden teve de fazer um esforço titânico para não ceder a todos os insultos (e não fez o pleno) e à guerrilha verbal constante que o impediu de dar várias respostas com princípio, meio e fim.

Podemos então afirmar que Trump venceu? Nem por isso. Sem dúvida que em relação ao eleitorado que acredita em Trump não me parece que haja alguma hipótese de o desmobilizar. Para este grupo Donald Trump é o seu Presidente.

Mas, em relação aos indecisos e aqueles que votaram em Trump apenas como forma de protesto nas últimas eleições, eu destacaria dois momentos do «debate» que podem ser decisivos: o ataque ao carácter dos filhos de Biden e a recusa em rejeitar sem apelo nem agravo movimentos supremacistas violentos. Aliás, esta última resultou de uma pergunta directa feita por Chris Wallace. A resposta de Donald Trump foi a de mencionar uma delas, os Proud Boys, acrescentando «stand down and stand by». Como se costuma dizer, para um bom entendedor meia palavra basta. Neste caso nem precisamos de meia palavra.

Terminei a noite a pensar em algo que me preocupa desde há alguns anos: a saúde das nossas democracias liberais. Vivemos num período no qual os desafios e as ameaças ao nosso regime político são internas, externas, diversificadas e, muitas delas, sofisticadas.

Desde logo, temos de ter a humildade de pensar que tantos outros antes de nós nunca imaginaram que as suas «vidas» democrática ruíssem como um castelo de cartas. Neste ponto, a História é uma ajuda valiosa para evitar trilhar esses mesmos caminhos.

Por último, nós que somos parte interessada destas democracias liberais nas quais vivemos e das quais desfrutamos temos o dever de não nos resignarmos perante os Trumps desta vida. E de lutar de forma pacífica e democrática para que não tenham sucesso político.

* Nota do Editor: a autora não escreve ao abrigo do novo acordo ortográfico

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