Acabar com os debates tóxicos no lugar da informação

Daniel Oliveira defende que "os debates desportivos têm sido foco de tudo o que há de mais tóxico no espaço público" e assegura que a decisão da SIC Notícia de descontinuar este tipo de conteúdo "é um enorme favor que se faz à saúde do debate público".

No espaço de opinião que ocupa na TSF, Daniel Oliveira sublinha que "todos nós sabemos que o futebol apela à irracionalidade, é da sua natureza e, como adeptos, isso não é grave, faz parte de um momento de libertação de quem gosta de futebol, mas o papel da comunicação social não é replicar essa racionalidade, é dar ordem, informação e racionalidade ao que são as nossas emoções"

Para o comentador, "o problema deste tipo de debate não é apenas contribuir para a agressividade, ódio e violência no desporto, que já são um problema grave, mas é o espetáculo em geral do desrespeito pelo outro que tem andado no espaço público."

Daniel Oliveira acredita que "a forma como se discute nestes programas criou um novo normal no debate público, que tornou aceitável o que até há uns anos era inaceitável no espaço público e na forma de falarmos uns com os outros".

O jornalista vai mais longe e estabelece uma ligação entre este tipo de programas e a ascensão de figuras como André Ventura: "Não é por acaso que o líder da extrema-direita portuguesa veio de um programa deste género, porque aquele é o lugar ideal para um estilo de comunicação baseado no ódio, na irracionalidade e até na amoralidade do discurso."

O comentador explica que "alguns destes programas são muito antigos e inicialmente não tinham este problema, nem este clima, nem este ambiente", no entanto, com o passar do tempo, "o clima no próprio futebol mudou e os clubes criaram máquinas de guerrilha comunicacional que utilizam estes programas de futebol para alimentar essa guerrilha permanente".

No entanto, o comentador deixa a ressalva que este tipo de debates não devem ser comparados com programas que têm representantes de partidos políticos, uma vez que "os partidos políticos apresentam propostas alternativas que devem e têm de ser debatidas na sociedade", já "os clubes de futebol não se confrontam no debate, confrontam-se no campo, no jogo".

Daniel Oliveira considera que a decisão da SIC Notícias "é um primeiro grito do Ipiranga da comunicação social que não permite que os clubes a continuem a tutelar, porque é isso que acontece: os três clubes tutelam os órgãos de comunicação social, escolhendo as pessoas que lá debatem e decidindo como é que a agenda deve seguir a comunicação social nesta matéria."

"As televisões não têm de continuar a ser instrumentos de guerra lideradas por diretores de comunicação de clubes e este foi um excelente passo para alguma higiene no espaço público", remata.

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