As fronteiras soviéticas de Vladimir Putin

Ontem, dia 7 de Outubro, Vladimir Putin fez 68 anos. Fui ao site do Kremlin ver os destaques relativos aos parabéns oficiais ao homem forte da Rússia. E, enquanto ia lendo a lista, que não tinha grandes surpresas nem mesmo em relação aos ausentes, fui reforçando a minha perspectiva relativa ao mapa de instabilidade nos vizinhos de Moscovo. Na verdade, nos territórios da antiga União Soviética e que hoje, por um conjunto muito diverso de razões, são focos de conflitos e de protestos.

Este mapa pode começar na Bielorrússia, cujos protestos continuam, passar pela guerra na Ucrânia Oriental (e nem precisamos de falar da anexação da Crimeia), saltar para o Cáucaso, onde a rivalidade entre a Arménia e o Azerbaijão está ao rubro, e, mais recentemente, olhar para os protestos no Quirguistão, na região da Ásia Central.

Os conflitos em si mesmos são diferentes. Mesmo entre a Bielorrússia e o Quirguistão, onde encontramos uma situação de protestos face a eleições, o ponto de partida é diferente. Por exemplo, a Bielorrússia é uma ditadura e o Quirguistão é um país classificado pela Freedom House, uma organização que todos os anos divulga, entre outros, um relatório sobre o estado da democracia liberal no mundo, como parcialmente livre. Aliás, é o único dos «stãos» na Ásia Central que desafina face ao diapasão ditatorial que caracteriza esta região.

Em relação ao Cáucaso, e sem contarmos com a «ajuda» russa à Abecásia e à Ossétia do Sul em território da Geórgia, a disputa entre a Arménia e o Azerbaijão é tudo menos pacífica. O conflito tem contornos étnicos e territoriais relacionados com a história das suas fronteiras. Em particular com o «enclave» de Nagorno-Karabakh em território do Azerbaijão. Um dos elementos de análise que vale a pena realçar é o papel da Turquia de Erdogan e a sua política externa mais assertiva. Mais ainda, a rivalidade histórica entre a Turquia e a Arménia também é pertinente para entendermos o apoio de Ancara ao Azerbaijão. E, é claro, os contornos energéticos, nomeadamente gás natural e petróleo, são igualmente cruciais.

Os conflitos são, de facto, diferentes entre si, mas ganham em serem analisados em conjunto. Vladimir Putin é frequentemente caracterizado como um jogador de xadrez com a inteligência, a paciência e a estratégia associadas a este jogo.

As nossas atenções têm estado centradas nas eleições nos EUA. Mas vale a pena estarmos mais atentos ao que vai acontecendo na vizinhança russa. Os seus dilemas e a sua instabilidade fazem-nos pensar que as fronteiras soviéticas, embora desaparecidas, ainda perduram e que a sua resolução está longe de um final feliz.

*a autora não segue o acordo ortográfico de 1990

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