Assim, se vê, a fraqueza do PC

O PCP divide o mundo entre comunistas e anticomunistas. Uma dicotomia binária, simplista e redutora, que parte da velha máxima de que "quem não está connosco, está contra nós". Tal como noutros aspetos ideológicos, programáticos e práticos, a visão do PCP é quase sempre baseada na luta: dos trabalhadores contra os patrões, do imperialismo contra o coletivismo, do capitalismo contra a economia planificada.

Ver sempre o mundo de uma forma que opõe duas partes transforma o raciocínio, e por consequência, a ação, em permanente conflito e com pouca margem para consenso. Forjado na luta, o PCP não quer, não sabe ou não consegue estar de outra forma numa sociedade que se transforma a cada dia. As alterações sociais, políticas, demográficas, laborais e económicas parecem dizer pouco ao PCP, que permanece firme numa visão ortodoxa do mundo, dos bons contra os maus, dos revolucionários contra os situacionistas, dos progressistas contra os conservadores.

Só assim se compreende o discurso e a queixa do PCP contra o anticomunismo que, na visão da Soeiro Pereira Gomes, grassa "na sociedade e nas instituições". Sempre que o PCP e o seu discurso, métodos e doutrina são postos em causa, a reação não é a de explicar, clarificar ou contrariar, é antes de "denunciar" todos os que não concordam com a ortodoxia marxista-leninista, e fazendo desses, uma larguíssima maioria, note-se, reféns de um instinto primário que é o de serem "anti".

Há vários exemplos. Bastaria perguntar o que aconteceu nas autarquias comunistas que mudaram de mãos. Em grande parte dos casos, os novos presidentes de câmara não tinham no gabinete um papel, um dossier, um relatório que fosse. Nada. O esvaziamento de documentos, a falta de passagem de pastas, a ausência de interlocutor. Como se depois do PCP no governo de uma câmara, a seguir só o caos. Acresce a isto que muito deste trabalho de ocultação de papéis foi feito por funcionários da autarquia, que não são funcionários do partido.

Setúbal é o que aqui me traz. Fora outro o autarca, fora outra a força política a dominar o concelho e o PCP estaria na primeira linha a exigir a demissão do executivo. Colocar cidadãos russos a receber refugiados ucranianos já é uma ideia absurda. Ter cidadãos russos com "ligações" à embaixada, é criminoso. Além de desumano, ultrajante e, até, ofensivo. O PCP dos povos oprimidos, não é o partido de todos os povos oprimidos. Depende que que povo é oprimido, e por quem.
A câmara de Setúbal tem-se comportado, neste processo, com uma displicência, uma ligeireza e uma incompetência que, só por si, deveria levar a uma demissão por "indecentemente e má figura".

Mais do que as razões políticas, do bom senso ou criminais - se as houver - tudo o que sabemos até agora é mais do que suficiente para se perceber que os eleitos não estiverem à altura dos eleitores e que umas eleições não são um cheque em branco, mas um voto de confiança e de responsabilidade. Que, se quebrado, só pode conduzir a novas eleições.
O PCP sabe disso. Mas nada disto lhe importa, interessa ou merece discussão. Porque quem quer que se atreva a criticar tem já o rótulo colado: é anticomunista.

E assim, se vê, a fraqueza do PC.

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