Balsemão e o esquecimento

É na hora da saída de cena que se vê a grandeza de um homem. E é pequeno o homem que usa os vários palcos de que dispõe para ajustar contas com o passado, como se o próprio passado dele não fosse um amontoado de verdades verdadeiras, verdades construídas e mentiras disfarçadas.

Quem pode verdadeiramente dizer: eu sei tudo sobre a tua vida, não há nada que não possas saber da minha.

Pior, quando esse homem de saída sabe que está sozinho no palco e que, apesar de o outro dispor de múltiplos palcos, pouco mais pode fazer, por inerência das funções, por pudor e sentido institucional, do que sorrir aos interstícios desses longos anos, sendo que nada do que é dito é novo. Ao longo da vida, os azedumes desse homem pelo outro foram sendo dissecados até à exaustão, sempre com a bílis no limite do aceitável.

Quem escreve as memórias tem que contar tudo, diz esse homem que acaba de lançar uma autobiografia autoelogiosa, não contando obviamente tudo e muito menos os pedaços de vida que ensombram os dias.

Não por falhas na memória, que se poderiam atribuir e justificar com a circunstância dos tempos, mas porque a memória tem a inteligência de nos preservar. É seletiva, dá saltos nas horas, poupa-nos àquilo que não queremos recordar, sob risco de sucumbirmos ao peso dos momentos úteis e inúteis.

É por isso que só o tempo nos permitirá ir aos detalhes. E saber se, como acusa Francisco Pinto Balsemão, dono do império mediático Impresa, que detém SIC e Expresso, ele foi o sapo que transportou o "escorpião" Marcelo ao longo do rio da vida, ou o contrário. Na fábula, o ingrato escorpião não resiste a picar o sapo, mesmo sabendo da morte certa de ambos.

Mas também sabemos que a História é escrita pelos vencedores.

P.S. Marcelo Rebelo de Sousa foi escolhido por Francisco Pinto Balsemão para diretor do jornal Expresso quando integrou o Governo da AD em 1979. Com a morte de Sá Carneiro, Balsemão chegou a primeiro-ministro e levou o atual presidente da República para seu ministro-adjunto, procurando que o seu semanário deixasse de ser tão acintosamente contra o governo.

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