Bielorrússia: aconteceu o que mais se temia

Vitória de Lukashenko, com 80%. A oposição denuncia a fraude, manifestantes nas ruas, protestos reprimidos. Indignação internacional.

O Presidente que agora se prepara para dar início ao sexto mandato consecutivo já tinha ameaçado que iria colocar a tropa nas ruas e esmagar qualquer tentativa de sabotagem, que é assim que o ditador classifica os protestos da oposição. Aliás, ainda em junho, num evento com militares na cidade de Brest, no ocidente do país, pediu aos militares que suprimissem a agitação civil e "protegessem a soberania" de "ameaças híbridas".

O que é certo é que, pela primeira vez em muito tempo teve uma oposição forte, Svetlana Tskihanouskaya, antiga professora e tradutora de inglês, apareceu na corrida depois de o marido ter sido banido e preso, teve banhos de multidão em vários pontos do país (como nunca tinha sido visto, comícios com milhares de pessoas em comícios contra o regime). A oposição acreditava que Lukashenko seria obrigado a uma segunda volta.

Mas também é preciso ver que nenhuma eleição desde que Lukashenko chegou ao poder em 1994 foi considerada livre, transparente e justa pela comunidade internacional. Esta semana observadores internacionais, bem como jornalistas ucranianos e russos foram expulsos da Bielorrússia e estes são apenas sinais do que é o exercício da liberdade de expressão na Bielorrússia.

A Bielorrússia é, aliás, um país muito mal colocado em matéria de direitos políticos e liberdades cívicas em índices internacionais como o da organização Freedom House, com 19 pontos em 100 possíveis como máximo de liberdade de expressão.

Ontem, mal a comissão eleitoral central fez saber que a afluência às urnas no voto antecipado era recorde, 42%, ficou claro para observadores independentes (alguns foram impedidos de fazer supervisão eleitoral e até detidos) que mais uma fraude estaria em marcha uma vez que as mesas de voto antecipado não são sujeitas a observação, logo a manipulação é mais fácil. Pela primeira vez desde 2001 a Organização para a Segurança e Cooperação na Europa não foi convidada a supervisionar o sufrágio. Sem OSCE, também mais fácil se torna a manipulação na contagem dos votos.

As ligações à internet foram interrompidas durante o dia de votação, o canal da oposição Nexta, na rede Telgram, publicou um vídeo do que diz ser um funcionário de uma mesa de voto a sair pela janela de um segundo andar com um saco de votos. É tudo muito pouco transparente na Bielorrússia.

E na frente externa?

Estão tensas as relações com Moscovo, depois da detenção de mais de trinta funcionários de segurança russos. As autoridades de Minsk detiveram os russos nos arredores da capital bielorrussa Minsk, a 29 de julho, acusados de planearem distúrbios.

O Kremlin pediu a libertação, alegando que esses cidadãos russos apenas estavam na Bielorrússia porque perderam um voo de ligação com outro país. Nos últimos tempos, o país foi usada como plataforma de mercenários da empresa russa Wagner - «maioritariamente para África». A Wagner atua em cenários como a Síria, Líbia, Ucrânia, mas também Cabo Delgado em Moçambique ou Sudão. A verdade é que, ao contrário da maior parte dos países, que entram e saem de períodos de confinamento, na Bielorrússia não há quaisquer medidas contra a Covid-19, as fronteiras estão abertas e os voos internacionais não têm restrições.

Sem mencionar o nome de Lukashenko, Dmitri Medvedev, numero dois do conselho de segurança russo, descreveu a detenção destes funcionários como parte de "uma simples maquinação política, "Não é apenas ofensivo, é muito triste", disse. "E também implicará tristes consequências", acrescentou.

Lukashenko tem dependido de empréstimos e contribuições russas para manter a economia do país, que funciona ao "estilo soviético", mas tem resistido às intenções de Moscovo em controlar setores decisivos da economia bielorrussa.

As relações entre a Rússia e a Bielorrússia são tradicionalmente cordiais, mas marcadas por momentos regulares de tensão relacionados com questões energéticas.

O líder bielorrusso acusou Moscovo de apoiar a oposição, uma alegação desmentida pelo Kremlin. Nos últimos meses, Lukashenko tem multiplicado declarações em que denuncia pressões russas, acusa Moscovo de pretender tornar o país um Estado-fantoche e vassalo e de procurar manipular as eleições presidenciais. O Kremlin tem negado.

As relações bilaterais da Bielorrússia com os Estados Unidos também estão desgastadas, devido ao apoio dado pelo Departamento de Estado americano a diversas organizações não-governamentais anti-Lukashenko, e porque o governo bielorrusso tem, alegadamente, dificultado as operações no país a organizações que tenham sede nos Estados Unidos.

A União Europeia, em relação à Bielorrússia, não pode fazer muito mais do que condenar. A Polónia pede uma cimeira extraordinária, aproveitando a oportunidade para aparecer, aos olhos internacionais, como baluarte dos valores da democracia, quando é bem diferente - a realidade do que acontece no país, nomeadamente em termos de independência do setor judicial, Josep Borrell, Alto Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, criticou as "inaceitáveis restrições à liberdade de imprensa e de reunião impostas pelo regime bielorrusso bem como as "detenções ilegais de protestantes pacíficos, observadores, jornalistas e ativistas". Nos últimos dias, foram expulsos repórteres ucranianos e russos.

Mas tendo em conta o caso do acordo que os então 28 pretendiam fazer com a Ucrânia, em Bruxelas haverá muita cautela em não dar um passo que possa ter como contra efeito dar substância ao acordo de união política que existe desde 2009 entre o Kremlin e o regime de Lukashenko. Ou seja, mais sanções podem empurrar o regime para os braços da Rússia. Em dezembro Lukashenko rejeitou aprofundar esses laços e Moscovo também o prefere, ainda assim, a ele, do que a qualquer espécie de oposição mais... democrática, que teria necessariamente melhor relação com a Europa, com os Estados Unidos, com a NATO.

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