Como a política usa a Comunicação Social (e vice-versa)

Fui fazer contas. A Folha de São Paulo tem 191 colunistas e blogueiros fixos, nas edições online e impressa. Desses, apenas três são políticos no ativo ou associáveis a partidos políticos: a deputada Tabata Amaral, o ex-presidente da Câmara de São Paulo Fernando Haddad e o ex-ministro das Finanças Nelson Barbosa. Ou seja, 1,6%.

Segunda tentativa. O New York Times tem 16 colunistas fixos. Nenhum político ou ex-político.

Terceira tentativa. Em 2019 o jornal canadiano Toronto Star emitiu uma nota de repúdio, após a chefe de gabinete do primeiro ministro Justin Trudeau ter, em privado, alegadamente afirmado que a sua equipa poderia publicar artigos de opinião na imprensa para apoiar um aliado político. A nota do jornal sublinhava que a possibilidade do "primeiro ministro ou qualquer outro político ou administrador público" ter acesso irrestrito à imprensa era "perturbadora e risível."

Aquilo que é condenável ou uma exceção na maioria dos países democráticos, é a regra em Portugal. Os espaços fixos de opinião nos media são predominantemente ocupados por políticos. Se contarmos a imprensa regional, são cerca de 80. No Público, por exemplo, escrevem Rui Tavares, Pedro Filipe Soares, António Bagão Félix, Francisco Assis, Pacheco Pereira e Paula Teixeira da Cruz - todos facilmente associáveis a partidos políticos. Já para não falar dos ex-ministros do PS, Nuno Severiano Teixeira e António Barreto. No JN temos como colunistas Miguel Poiares Maduro, Carvalho da Silva, André Silva, Mariana Mortágua, entre outros.

No Expresso escrevem Isabel Moreira, Francisco Louçã, Manuela Ferreira Leite, José Soeiro, Duarte Marques, Diogo Agostinho e Sérgio Sousa Pinto. Paulo Portas na TVI, Francisco Louçã na SIC Notícias e Marques Mendes na SIC têm os seus espaços autorais. Outros redizem-se e multiplicam-se entre jornais, rádio e imprensa, como Pacheco Pereira.

Como os espaços disponíveis para comentar política, apesar da obesidade, têm limites físicos, alguns políticos começaram a ocupar até os espaços de comentário desportivo, para esticarem a esperança média de vida da sua relevância. Entre os comentadores de futebol temos ex-vereadores municipais, ex-presidentes de câmara, ex-ministros e vários deputados.

É uma estratégia bem conseguida. Os primeiros ministros José Sócrates, António Costa e Pedro Santana Lopes, além do presidente Marcelo Rebelo de Sousa avolumaram-se politicamente com a exposição que as televisões lhes proporcionaram durante anos.

As motivações das direções para os convites a políticos são várias: alguns deles não precisam de ser remunerados e quase todos eles já são conhecidos do público, o que catapulta as audiências. Existe uma sobrevalorização do comentador relativamente ao comentário. E acredita-se que podem sempre trazer informação de bastidores, para acender o debate público.

Com isso, a comunicação social torna-se cúmplice de um instrumento que, na sua essência, desgasta a democracia. Há muito tempo que os partidos políticos em Portugal saíram dos espaços que lhes são oferecidos pela Constituição para povoarem o território destinado à sociedade civil. Em teoria, deveria ser na imprensa que os portugueses acederiam ao contraditório, aos factos, à independência.

A informação emitida por políticos e ex-políticos na comunicação social é alimentada por uma teia de interesses específicos à dinâmica partidária. Muitas vezes são recados emitidos para dentro das agremiações. A visibilidade concedida pelas televisões e jornais é a forma mais eficiente de um político se legitimar politicamente.

Deixa de se valorizar o caráter, o projeto partidário ou o desempenho individual e passa-se a medir a audiência. Os eleitores são transformados em público e quanto mais público tiver, mais um político se agiganta dentro das estruturas partidárias.

Ademais, a representatividade dos partidos na comunicação social não equivale à representatividade no Parlamento, desequilibrando o edifício democrático. No duelo entre as direções de órgãos de comunicação (que escolhem os comentadores) e os eleitores, geralmente vencem os primeiros, influenciando, posteriormente, os segundos.

Os políticos não deveriam ser comentadores políticos profissionais pela mesma razão que uma empresa de auditoria não se pode avaliar a ela própria. A opinião é necessariamente carente de independência. Se os políticos atuassem nos media como porta-vozes oficiais dos seus partidos, as regras seriam mais claras, mas eles são convidados como especialistas em política ou no seu papel de celebridade pública, o que torna a informação turva.

Desde que há populistas como Cléon na Antiga Grécia e desde que os jornais foram inventados há 400 anos, que a classe política tenta valer-se de veículos de comunicação para amplificar a sua mensagem. É um instinto natural e legítimo. Mas cabe aos media refrear esses ímpetos - contrariando, verificando, esclarecendo. Foi Edmund Burke no século XVIII que disse que, o 4º poder, aquele que se senta nas galerias do Parlamento, é mais importante do que todos os outros.

Como o estuário entre os media e a política pode gerar água salobra, a comunicação social de outros países define regras claras de comportamento. A BBC tem um capítulo dedicado a "Política e Políticos" nos seus "Guidelines Producers" Guidelines: The BBC"s Values And Standards" que explica como convidar, entrevistar, contratar ou remunerar políticos e ex-políticos. Diz um parágrafo: "(...) deve-se tomar cuidado para garantir que as decisões editoriais e de seleção de comentadores (...) não deem a nenhum político qualquer destaque que lhes permita obter uma vantagem indevida sobre os seus oponentes."

A presença pontual de comentadores associáveis a partidos políticos pode ser bem-vinda desde que obedeça a critérios de transparência e equanimidade claras. Mas são essas as regras que faltam em Portugal.

*Fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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