Da Palestina ao Ruanda, os "nossos valores"

Mais uma vez, "Golias é oprimido por David": na Sexta-feira Santa, no momento em que os muçulmanos celebravam o Ramadão, a polícia israelita entrou na mesquita de Al-Aqsa, atacando os fiéis que acabavam as orações, resultando em 150 feridos. Mas o debate é o de sempre: "o único Estado que pode ter um exército, que tem instrumentos para punir a violência dos outros e apoiar a dos seus, que determina quem entra e quem sai, quem passa e quem não passa, é apresentado como vítima."

Na opinião de Daniel Oliveira, "no que toca ao conflito israelo-palestiniano, a Europa não é diferente do PCP sobre a Ucrânia: equipara a violência do ocupado à do ocupante".

O comentador assume que a História dos dois países é "complicada", mas aponta que num cenário em que existe um claro ocupante - com Israel a construir colonatos ilegais em território que não lhe pertence e a expropriar terras e casas a palestinianos para os entregar a israelitas - não há lugar para "hesitações morais".

Há quem defenda que os ucranianos lutam "pelos nossos valores". Não, diz Daniel Oliveira, lutam pelo direito à independência, "um valor de todos os povos e civilizações, ocidentais ou não".

"Que valores são esses" a que chamamos nossos, questiona. No Reino Unido, Boris Johnson "usou a tragédia dos refugiados para ganhar apoio" ao assinar um acordo com o Ruanda para o país africano receber migrantes que atravessem o Canal da Mancha.

O primeiro-ministro britânico transforma, assim, "emigrantes e refugiados em lixo e o Ruanda na sua lixeira distante", condena Daniel Oliveira.

O plano, "provavelmente impraticável, mas esclarecedor dos valores éticos que movem o parlamento inglês", já foi condenado pela ONU e associações de direitos humanos, mas aparenta ter passado despercebido entre a sociedade civil.

Apesar de considerar louvável a solidariedade para com os ucranianos, a falta de uma condenação mais forte a "esta abjeta proposta britânica", tal como a forma como são tratados aqueles que chegaram da Síria, levam Daniel Oliveira a tirar uma conclusão: "A nossa solidariedade tem uma condição: serem brancos e europeus, mais humanos aos nossos olhos".

*Texto: Carolina Rico

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