Desta vez é que vai ser

Há uma certa moda no debate sobre desigualdades territoriais que passa por defender, olhando para a faixa estreita de Portugal no conjunto da Península Ibérica, que o interior não existe. Somos demasiado pequenos para falar em interioridade e, olhando para o mapa, esta estaria algures na região de Madrid. O argumento é teoricamente perfeito, porque de facto em qualquer ponto do nosso território estamos, quando muito, a escassos 200 quilómetros do mar. Uma distância que pode parecer coisa pouca, mas apenas para quem não vive lá.

O interior existe e sente-se. Sente-se em pormenores como o preço a pagar pelo gás, já que, explicava-se ainda ontem em manchete do JN, 2,6 milhões de famílias fora dos grandes centros urbanos não têm acesso ao serviço canalizado e por isso pagam mais do dobro das restantes.

Ou sente-se na falta de cobertura de serviços móveis de comunicação, que têm um custo não apenas de isolamento das populações, mas de perda de competitividade na atração de empresas. Sente-se, ainda, nas limitações à mobilidade, razão para ser exigida uma discriminação positiva nas portagens em territórios de baixa densidade, promessa do Governo em estudo e novamente adiada.

O interior existe e não é uma questão de distância pura e dura em relação às principais cidades do país - o chamado Portugal profundo está muitas vezes a poucas dezenas de quilómetros de Lisboa ou do Porto, porque os desequilíbrios económicos e sociais são significativos e têm sido poucos os passos dados para os contrariar. A começar pela própria Administração Pública, que todos os estudos indicam ser potenciadora de outras dinâmicas de desconcentração. Como justificou há poucos dias a ministra da Coesão Territorial, os serviços já instalados dificilmente poderão ser deslocalizados e as poucas tentativas para o fazer demonstraram isso mesmo.

O Programa de Recuperação e Resiliência inclui um eixo para a Coesão, Agricultura e Floresta e é incontornável procurar nele sinais do rumo estratégico a seguir na próxima década. No que diz respeito aos 12,9 mil milhões de subvenções que o país irá obter a fundo perdido, a competitividade e coesão contam com 1500 milhões de euros, destinados a projetos como o cadastro do território, os meios aéreos para incêndios rurais e projetos hidrológicos. Sobra um volume muito superior em empréstimos e haverá ainda intermináveis debates até ao esboço inicial a enviar para Bruxelas e, depois, até ao desenho final que será aprovado lá para abril.

Temos ouvido presidente da República, primeiro-ministro e outros governantes dizer que não podemos perder esta oportunidade única, apelar ao consenso e prometer que "agora é que vai ser". Os milhões vão ser bem geridos e aplicados, estando subentendido, mesmo que nunca dito, que nem sempre no passado foram.

Acontece que, ao mesmo tempo que promete, o primeiro-ministro e líder do PS permite que se mantenha na Assembleia da República uma deputada que, admite-o o Ministério Público, cometeu um crime de falsificação e usou de práticas duvidosas para aceder a fundos comunitários. O caso da deputada Hortense Martins não é um pormenor. É um exemplo assustador, num distrito do interior, Castelo Branco, da utilização pouco séria e rigorosa de verbas chegadas da Europa. De nada vale a produção legislativa de pacotes anticorrupção se

os nossos atores políticos não derem o exemplo. E não nos prometam que desta vez é que vai ser, se não estiverem dispostos a cumprir.

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