É sensato demitir a Diretora-Geral da Saúde?

O comentador político e ex-líder do PSD, Marques Mendes, defendeu ontem na SIC a demissão da Diretora-Geral da Saúde, Graça Freitas. A posição é relevante porque dá sequência a uma série de ataques que têm sido feitos à liderança do combate à COVID-19, seja do Governo, seja dos serviços de saúde, com a Ordem dos Médicos a ser a mentora de um processo de tentativa de descredibilização da ministra da Saúde, Marta Temido, em primeiro lugar, e das autoridades que gerem os serviços de saúde, em segundo lugar.

Marques Mendes aproveitou a autorização dada aos organizadores do Grande Prémio de Fórmula 1 para colocarem nas bancadas mais de 27 mil pessoas e zurziu em Graças Freitas desta maneira: "a Diretora-Geral da Saúde pode ser uma pessoa muito competente, e certamente é, para períodos normais, mas vê-se que não está preparada para tempos excecionais como este. Não está minimamente preparada e, portanto, comete erros desta natureza. A senhora pode estar ali agarrada ao lugar durante meses ou anos, mas verdadeiramente, com todos os erros que tem cometido, não é levada mais a sério".

Esta tentativa de deflagrar uma bomba política, que Marques Mendes armou em direto na televisão para, provavelmente, quase um milhão de portugueses telespetadores do noticiário da SIC é totalmente contraditória com a opinião política, também dada ontem para o mesmo auditório, pelo mesmo comentador, quando defendeu que o mais importante para combater a segunda vaga da COVID-19 não era declarar o estado de emergência ou tomar outra medida de contenção do género. O que, afinal, Marques Mendes quer é... união!:

"Nós precisamos de ter um mínimo de consenso político, de consenso técnico, de coesão social, de unidade nacional para combater esta pandemia. Esse ambiente de consenso e coesão existiu na primeira fase. Não existe agora - há muita divisão, muito conflito, muita clivagem. Os responsáveis deviam fazer um esforço para recriar aqui um ambiente de um mínimo de consenso político, técnico e coesão social".

Portanto o que Marques Mendes defende é, por um lado, decapitar a Direção-Geral da Saúde mas, ao mesmo tempo, exigir unidade aos políticos (do governo e da oposição), às autoridades, às ordens profissionais, aos sindicatos, aos técnicos de saúde, aos investigadores, aos cientistas, aos especialistas e à população em geral.

Demitir a Diretora-Geral da Saúde na altura mais perigosa da pandemia seria certamente arriscado pois, por muitos defeitos que Graça Freitas tenha (e tem, como é evidente), a verdade é que neste momento será muito difícil arranjar alguém para esse lugar que tenha aprendido tanto como ela sobre a gestão da saúde pública portuguesa face à COVID-19.

Qualquer nova pessoa que viesse ocupar o posto, por muito talentosa e tecnicamente preparada que fosse, precisaria sempre de alguns dias, talvez semanas, para dominar minimamente a máquina de combate à pandemia.

Ora, num momento em que esta guerra está no seu auge, em que decorrem batalhas em múltiplas frentes, em que o número de vítimas é cada vez mais elevado, decidir mudar o general que comanda as tropas é certamente mais perigoso do que mantê-lo. É irresponsável, imprudente e, provavelmente, inconsequente para a melhoria da situação pandémica. É quase certo, até, que iria agravar momentaneamente a capacidade de resposta dos serviços. Iria custar vidas. Marques Mendes, que não é tonto, deve saber isso.

Esta teoria pandémica bipolar - demitir dirigentes por um lado e pedir paz e união por outro lado - é passível de análise porque, por detrás dela, há um cenário onde se desenha o futuro do Serviço Nacional de Saúde.

De um lado está a Ordem dos Médicos, a aproveitar a confusão provocada pela pandemia, para puxar pelo aumento de influência e de negócio dos Hospitais Privados (que, diga-se de passagem, já receberam em 2018, do Estado, 22,5% do total do orçamento da Saúde, enquanto os consultórios privados e os gabinetes médicos receberam mais de 19%).

Do outro lado, está um governo que não reforça o suficiente, em meios humanos e financeiros, o Serviço Nacional de Saúde, levando a que cada erro, cada falha ou cada incapacidade dos hospitais públicos ou, até, da Direção-Geral da Saúde funcione como mais um prego no caixão que está a ser construído para enterrar na opinião pública uma das mais belas construções da democracia portuguesa, baseada no princípio que tanto um pobre como um rico têm direito ao mesmo cuidado de saúde.

Há apenas seis meses, apelava-se aos portugueses para irem às janelas aplaudir os médicos e enfermeiros do Serviço Nacional de Saúde. Agora, em última análise, procura-se uma união que o liquide.

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