Entre mortos e vivos

Há mortos e mortas com quem às vezes prefiro estar a estar com muitas vivas e vivos que ainda por aí andam. (É tudo, já se sabe, uma questão de tempo embora a gente nem sempre se lembre disso, até porque a vasta maioria de nós não é suicida nem assassina, não tocando por isso sequer ao de leve no calendário dessas efemérides). Tudo isto para contar que quando companhia feita na vida por gente que já morreu me falta agora, a trago para o pé de mim e passo tempo com ela para minha paz de espírito, ou para reforço da minha zona de conforto, ou para reencontro de momentos de doçura de vida ou de perplexidade partilhada.

Não se trata de falar com mortos nem de os ouvir falar comigo. (E, não a propósito mas tampouco inteiramente a despropósito: quem escreveu que quando as pessoas nos dizem que falam com Deus a gente acha que elas rezam e quando nos dizem que Deus fala com elas a gente acha que elas não estão boas da juízo? Oliver Sacks? Acho que foi ele mas não tenho a certeza). Não, não falo com mortos, e não espero que eles me falem a mim, não por ter pensado muito - ou pouco - nisso mas por ter aceite, sem pensar de todo, o que os meus Pais me ensinaram: o universo é físico e não revela nem exige a existência de Deus. (Há umas semanas, na altura dos Nobeis deste ano, astrónomo ou cosmologista que partilhou o prémio da física levou-me de novo às verdades como punhos do fim da minha infância e do começo da minha adolescência, ao responder a jornalistas que, no universo tal como o conhecemos hoje, não há lugar para Deus). Depois as coisas complicaram-se. Soube de grandes cientistas crentes; António Sérgio dissera que havia papalvos de génio e por variações desse aforismo me tenho ficado.

Se parentes católicos não tinham abalado as nossas (do mano João e minha) convicções de ateus eu, que nem baptizado fui, muitas vezes pensei que, se fosse obrigado a escolher fé, escolheria a da Santa Madre Igreja Católica Apostólica Romana pois, nado e criado rodeado pelos seus fieis, há muito conclui que ser católico é a coisa mais parecida que há com não ter religião nenhuma. (Não me lembro de ouvir alguém dizer, por exemplo, que é mau - ou má - calvinista, ou luterano ou evangélico mas ser mau católico é o estado naturalmente declarado de quase todos os católicos e católicas que conheço, quando às vezes falamos destas coisas).

Voltando aos mortos que vão sendo mais o meu amigo Peter Carrington, seis meses antes de morrer e morreu com 99 anos, contou-me que passava agora a vida a fazer elogios fúnebresbaptizado para que era convidado pelas famílias de mortos seus conhecidos, alguns deles ilustres outros não. Depois dessa fase incerta e inquietante que poderá demorar algum tempo, do lado de lá as pessoas ganham outras características: se, por um lado, deixamos de as poder ver ou de esperar que elas nos chamem por outro lado contamos com a sua companhia sempre que dela precisarmos enquanto tivermos memória para as trazermos até nós.

José Cutileiro publica originalmente este "Bloco de Notas" no blogue Retrovisor

O autor não escreve segundo a grafia alterada pelo Acordo Ortográfico de 1990

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