Finalmente um debate, mas com o mesmo mentiroso

Muito mais civilizado e com Trump muito melhor do que no primeiro debate. Mas com a mesma dificuldade em falar verdade. Biden foi Biden. Deslizes, embora poucos. Não vai mudar muito o sentido de voto.

Foi um debate bastante mais civilizado, num tom de... debate. A moderadora da NBC, Kristin Welker, só não tem nota máxima porque faltou perguntar ao atual presidente se aceita os resultados em caso de derrota; é certo que Donald Trump já tem dito que não, mas teria sido importante saber, ouvi-lo novamente e de viva voz, uma vez que estamos a pouco mais de uma semana das eleições.

O tom mais cordato, mais calmo, curiosamente, beneficiou Trump que pôde demonstrar uma postura mais presidenciável e parece óbvio que esteve muitíssimo melhor que no primeiro debate. É claro que não se pode pedir ao presidente dos Estados Unidos que não minta, é coisa que será incapaz de fazer, o fact-checking, a verificação de factos após o debate, mostra que houve várias acusações que fez ao oponente baseadas em alegações que já tinham sido desmentidas por factos e comissões independentes, como nos caso de alegados benefícios de dinheiro da Rússia, uns 3,5 milhões de dólares em que o candidato republicano não se cansou de insistir que Biden teria recebido através do filho ou as alegações de que como vice-presidente na administração Obama fez o défice com a China subir e não descer.

Sobre a alegada interferência no processo eleitoral dos EUA, Biden garantiu que seja a Rússia, a China ou o Irão, "pagarão um preço". O candidato democrata garantiu que nunca recebeu um cêntimo de uma potência estrangeira, ripostando com a falta de declarações de impostos de Trump (que continua, quatro anos depois, a dizer que a vai apresentar e que pagou milhões numa espécie de pagamentos por conta). O atual inquilino da Casa Branca, sobre a sua situação fiscal, garantiu que foi "vítima de uma caça às bruxas", denunciando que teve de "passar por aquilo que nunca ninguém passou".

Biden conseguiu conter a investida do incumbente, as constantes de referências de Trump à família do democrata (respondendo "isto não é sobre a minha família ou sobre a família dele, mas sim sobre a sua família - disse-o apontando para a câmara - e a dificuldade em ter comida na mesa ou dinheiro para mandar os filhos para a escola"), atuando como equipa em vantagem, que soube segurar, embora cometendo alguns deslizes desnecessários, como na demarcação que fez de Bernie Sanders. Sabemos que tem sido a estratégia de Biden ao longo dos últimos meses, mas Isso pode garantir apoios ao centro e até de independentes ou republicanos descontentes, mas pode também custar votos entre os jovens mais progressistas, a ala mais à esquerda no partido democrata, gerar internamente uma espécie de efeito Hillary (pela rejeição). Ou quando, com a Pensilvânia como swing state, com sentido de voto ainda por decidir, anunciou que, com ele a presidente, não há mais apoios federais à indústria do petróleo. Faz todo o sentido em termos de transição económica para indústrias limpas e energias renováveis, mas não é coisa que garanta votos nos estados onde a economia e as famílias ainda dependem muito de indústrias mais poluentes. Biden foi verdadeiro mas nem sempre a sinceridade rende votos. E no sistema eleitoral de winner takes it all, por voto se ganha tudo, por um voto tudo se perde.

Trump entrou ao ataque

No tema inicial, pandemia, Trump esteve ao ataque ao dizer que apenas há alguns surtos aqui e ali, mas que muitos já passaram e que a vacina vai ser anunciada nas próximas semanas. Depois, quando questionado pela moderadora, lá foi dizendo que seria até ao final do ano. Insistiu muito na ideia: "temos de abrir o país, senão não temos país", o que é uma frase bastante forte, que a cura não pode ser pior que a doença, que Nova Iorque parece uma cidade fantasma, que "temos de viver com o vírus". Biden aproveitou para dizer, voltado para as câmaras muitas vezes, "estamos é a morrer com o vírus". Os Estados Unidos estão a passar por aquilo que os especialistas consideram uma terceira vaga, Biden voltou a dizer que a gestão da pandemia por parte de Trump foi "absolutamente trágica" e que o homem que estava ali a fazer promessas para as próximas semanas era o mesmo que tinha prometido "a vacina na Páscoa e depois no verão"... olhando os espetadores nos olhos afirmou: "pensem no que Trump já sabia em janeiro (sobre a pandemia) e não disse".

Trump insiste muito na ideia - que é certamente cara à sua base de apoio - de que o país não se pode fechar, "não nos podemos fechar numa cave como ele fez", disse, apontando para Joe Biden. Insistiu na ideia de que 99% das pessoas que são infetadas recuperam, que ele que recuperou e agora está imune "senão não estaria" ali, em Nashville, Tennessee, onde decorreu o segundo e último frente-a-frente.

Mais mentiras

Trump mentiu quando diz que a China está a pagar biliões e biliões de dólares de tarifas. Na verdade, são apenas 60 milhões de tarifas impostas a produtos no valor de 360 milhões. Mais grave, talvez, foi quando confrontado com a questão dos milhares de crianças separadas dos pais na fronteira com o México, disse que muitos desses miúdos são menores não acompanhados, chegam através de cartéis e gangues. Além de tal não ser objetivamente verdade, acontece que os documentos dos tribunais que foram divulgados esta semana indicam que há 545 crianças que ainda não voltaram para os pais e a administração Trump há meses que recusa divulgar dados sobre as famílias que foram separadas.

Há coisas mais risíveis como quando sobre as alterações climáticas e a necessidade de políticas de eficiência energética, o que o atual presidente disse foi que os democratas querem demolir prédios e substitui-los por outros com janelas mais pequenas. Já para não dizer na frase que voltou a repetir, duas vezes: "sou a pessoa menos racista que há nesta sala".

Sobre a Coreia do Norte e o facto de Pyongyang continuar com testes nucleares, Trump puxou dos galões e acusou a anterior administração democrata de lhe ter "deixado uma confusão".

Se for aprovada a proposta que o governo vai fazer chegar ao Supremo, "vinte milhões de americanos podem ficar imediatamente sem seguro de saúde". Ao ser confrontado pela moderadora, Trump fugiu ao tema e Biden prometeu "reduzir os prémios dos seguros e os preços dos medicamentos". Muita promessa para quem, segundo Trump, "não fez nada em 47 anos" e vai seguir uma "política de medicamentos socialista".

Trump conseguiu, várias vezes, jogar a cartada do antipolítico (o outro é que o é, ele não), conseguiu segurar o seu campo de apoio (Biden, por seu lado, também) e conseguiu que, em vários momentos, o debate incidisse mais nos oito anos de Administração Obama que nos quatro últimos de gestão Trump. Não me parece que o impacto do debate seja significativo, até porque nesta altura será relativamente pequena a percentagem de indecisos (nunca fiando, claro) e dificilmente este confronto verbal mais cordato (na medida do possível) em Nasvillhe vai servir para Trump reduzir a desvantagem que todas as sondagens lhe apontam nos estados decisivos. Mesmo assim, esta madrugada pode ter reduzido a distância. Mais polido mas novamente à custa de mentiras.

Um desafio para o futuro

Haverá daqui a quatro anos um sistema de fact-checking em tempo real que corte a palavra quando a mentira está a ser veiculada por um qualquer candidato deste tecido moral? Um desafio para Silicon Valley. Talvez as tecnológicas que nesse inovador campo do reconhecimento da mentira venham a ter êxito, até possam chamar o presidente Biden ou a vice-presidente Kamala para a inauguração do sistema.

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