Graciano, um turista acidental

Daniel Oliveira critica o "embaraçoso desconhecimento" de Nuno Graciano sobre a cidade de Lisboa e sobre o cargo de presidente da autarquia, lugar ao qual se candidata pelo Chega. Para o comentador, Graciano "não é um candidato relevante" e diz ser "impressionante como Graciano não tem nada a dizer sobre uma cidade que não conhece, um programa que não tem, um cargo que não faz ideia para que serve".

No espaço de opinião semanal que ocupa na TSF, Daniel Oliveira sublinha que "já todos ouvimos políticos que são geradores automáticos de lero-lero, capazes de falar uma hora sem dizer coisa alguma", mas desafia os ouvintes da TSF a visitarem o site da rádio "e a ouvirem e lerem a entrevista que Nuno Graciano deu a Filipe Santa-Bárbara (da TSF) e a João Pedro Henriques (do Diário de Notícias)".

"Já todos ouvimos entrevistas vazias, mas esta está para lá de Marraquexe... ou de Lisboa, o que para ele [Nuno Graciano] é exatamente o mesmo", sustenta.

Ao longo do seu comentário semanal, o jornalista assinala os exemplos da ignorância do candidato à Câmara de Lisboa sobre a cidade: "Como sabemos pelos seus cartazes, a corrupção é o centro da sua campanha. Contra a corrupção exige políticas claras. Perguntam-lhe quais. 'Políticas de claridade', responde. 'Que os dossiês não estejam fechados.' Mas quais dossiês? 'Os dossiês'."

"A corrupção preocupa-o imenso, insiste. Tanto que, quando lhe pedem casos concretos no concelho de Lisboa, não se lembra de nenhum, nem sequer se lembra da suspeita sobre um ex-vereador que até levou, muito recentemente, a buscas na Câmara Municipal de Lisboa", acrescenta.

O comentador sublinha que "nem para fazer populismo, Nuno Graciano faz o trabalho de casa" e lembra que, para não, não precisava de muito: "bastava ler os jornais". Daniel Oliveira acrescenta que Nuno Graciano "diz que ainda está a estudar e a confirmar casos", mas o cronista recorda, contudo, que "estes são notícia há mais de quatro anos".

"A cidade tem muitos problemas e precisa de um abanão, afirma [Nuno Graciano], seguro. 'Quais são os problemas?', perguntam-lhe os jornalistas. Nuno Graciano tem resposta rápida e cirúrgica: são vários. E explica que está agora a tomar conhecimento da cidade. E achou que a melhor forma de conhecer Lisboa era candidatar-se a dirigi-la. Vou tentar fazer o mesmo com Nova Iorque ou Paris. Em vez de fazer turismo, candidato-me à presidência da Câmara. Apesar de tudo, as campanhas sempre têm visitas guiadas", ironiza o comentador.

Daniel Oliveira continua e explica que quando foi pedido a Nuno Graciano "que desse um exemplo de um problema gravíssimo na cidade, lá se lembrou das condições em que estão os Bombeiros Voluntários do Beato, onde foi outro dia".

"Quando fala dos guetos na cidade e lhe perguntam que guetos são, ele também não sabe dizer. Sabe que quem lá mora precisa de ser autónomo, em vez de receber subsídios. Mas, sem ajuda dos jornalistas, o pouco autónomo candidato não saberia quantos bairros sociais existem em Lisboa e quantas pessoas lá vivem, informação disponível para quem resolva estudar o assunto antes de dizer umas frases feitas sobre uma realidade que, evidentemente, desconhece", continua Daniel Oliveira.

O comentador aponta mais uma imprecisão no discurso de Nuno Graciano, desta feita relacionada com o tema da habitação: "[Nuno Graciano] quer aumentar a população residente. Diz que Lisboa já teve um milhão de habitantes e que nos últimos vinte anos perdeu metade. Na realidade, em 2001, Lisboa tinha 564 mil habitantes. São só menos 436 mil do que Graciano julga. Veremos o que diz o Censos de 2021, mas pode ter perdido, nas duas últimas décadas, 10% da população. De facto, em 1981, há 40 anos - e não há 20 -, Lisboa tinha muito mais habitantes, o máximo da sua história. Eram 807 mil. Ainda assim, foi das coisas mais rigorosas que o candidato disse. Só falhou por duas décadas e 200 mil pessoas."

"Num momento de delírio, os jornalistas perguntaram-lhe se tem números e metas para alcançar para o aumento de população. Claro que não tem. Mas a resposta era fácil: seria só fazer as mesmas contas que fez para concluir que no concelho de Lisboa tínhamos um milhão de habitantes em 2001 e ficava logo resolvida a crise demográfica da cidade", ridiculariza.

Quanto ao desejo do candidato de que haja rendas acessíveis, Daniel Oliveira afirma que "quando lhe perguntam se sabe como funciona o programa Renda Segura, ele responde: 'não faço ideia'" e que "quando o jornalista, que não é candidato, lhe dá uma explicação rápida, ele responde 'concordo'." Para Daniel Oliveira, isto significa que Graciano "tem soluções para os preços das rendas, mas não faz ideia se alguma está a ser aplicada; diz que a liderança socialista da Câmara vive de promessas, mas ele nem sequer conhece as que cumpriu, quanto mais as que ficaram por cumprir."

"Há coisas que Nuno Graciano sabe. Sabe que, em 14 novos centros de saúde prometidos, Fernando Medina só terá construído um. Eu sei porque é que ele sabe. Está em cartazes do PSD espalhados por toda a cidade. Agora, é só os outros partidos porem tudo em outdoors e Graciano já tem teleponto para saber o que dizer", ironiza.

No que diz respeito aos transportes públicos, o comentador frisa que Nuno Graciano "é a favor de um centro sem carros, mas - desconhecendo que todos os projetos de um centro sem carros excetuam os moradores - não quer tirar os carros de quem lá vive".

No mesmo plano, Nuno Graciano "opõe-se às ciclovias". Daniel Oliveira considera que "a única coisa que Graciano levou preparada para a sua primeira entrevista de fundo foi a expressão 'ciclovazias', porque quer governar com as pessoas de Lisboa e não para os outros."

"Mas quem usa as ciclovias é quem vive em Lisboa, diz o jornalista, os ciclistas não vêm a pedalar para a cidade. Ele [Nuno Graciano] diz que sim, porque conhece um grupo de amigos que faz isso. E não saímos desta conversa de café", sustenta Daniel Oliveira.

Para Daniel Oliveira, "o seu embaraçoso desconhecimento de todos os problemas da cidade não o impede de exibir aquela superioridade retórica dos populistas que se apresentam como quem conhece melhor o quotidiano comum do que os seus interlocutores, e não hesita usar essa cartada com dois jornalistas que, ao contrário dele, vivem em Lisboa, porque ele, apesar de não habitar no concelho a que se candidata (coisa evidente em várias das suas afirmações), é o único candidato alfacinha de nascimento", acrescentando ironicamente que "o berço, está bom de ver, é muitíssimo relevante para governar".

"Em toda a entrevista, disse, já no fim, uma grande verdade: que tinha muito para aprender sobre Lisboa. O facto de ter a ousadia de se candidatar a liderar uma autarquia sobre a qual sabe menos do que o lisboeta comum denuncia que nem imagina tudo o que ainda lhe falta aprender. Diz que nem vai de férias para conhecer Lisboa. Faz bem, faça férias cá dentro. Lisboa precisa de um turista assim. Nuno Graciano não é um candidato relevante, é apenas uma boa imagem do partido pelo qual se candidata, do desrespeito absoluto que o Chega tem pelos seus próprios eleitores para quem acham que é suficiente mostrar uma cara conhecida, que diga umas palavras fortes, sem conhecer o mínimo do cargo a que se candidata e da cidade que quer dirigir. André Ventura acha que para quem é, Graciano basta. Se este é o candidato que tem para o maior concelho português, imaginem por esse país fora", remata.

Texto adaptado por Sara Beatriz Monteiro

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