Ainda não sabemos o que queremos ser

Quando Portugal celebrar o seu 900.º aniversário, daqui a 24 anos, que país gostaríamos de ser? Foi desta forma que comecei um artigo há alguns meses neste espaço, onde critiquei a falta de debate público em Portugal e ressaltei a importância de planear o país a longo prazo. Coincidentemente, algumas boas iniciativas, anunciadas nas últimas semanas, têm caminhado na mesma direção.

O Presidente da República tem mantido encontros regulares com um grupo de reflexão sobre o futuro de Portugal. A Fundação Gulbenkian anunciou a criação de um novo fórum de reflexão sobre tendências futuras liderado por Miguel Poiares Maduro. Um livro da Fundação Francisco Manuel dos Santos, escrito por Bruno Cardoso Reis, exorta o governo e os partidos a pensarem a longo prazo. Bernardo Pires de Lima escreveu a semana passada sobre a importância de uma "cultura de preparação e antecipação." A Ordem dos Economistas organizou um congresso com o tema "Portugal 2030 - Visões e Decisões".

Isto significa que estamos a virar a página?

Não.

Racionalmente, todos os membros do governo, deste ou dos anteriores, sabem que planear a longo prazo, como seres munidos de inteligência, é melhor do que tomar decisões apoiadas apenas no impulso, como primatas. Mas quase sempre as nossas políticas públicas são desenhadas numa prancheta do tamanho de um mandato. Preferimos, quase sempre, atuar perante as necessidades imediatas do eleitorado do que pensar de forma estratégica e a longo prazo, antecipando tendências e preparando-nos para choques sistémicos. Somos acomodados.

Um exemplo concreto. Como é que um país que tem 35% da sua área coberta por florestas ainda não teve um debate público de qualidade sobre planeamento florestal? Qual a correlação entre as nossas florestas e as nossas metas de alterações climáticas? Qual a importância do parque florestal para a economia nacional? E para produção de energia elétrica renovável através da biomassa? E qual o impacto na prevenção dos fogos?

Outro país, igualmente com uma massa florestal significativa, seguiu uma trajetória diferente. Em 2015, a Finlândia adotou uma National Forest Strategy com dez medidas estratégicas a serem tomadas até 2025. O país gere as suas florestas como quem junta as peças de um puzzle de interesses diferenciados, encabeçados tanto por produtores de celulose, ambientalistas ou produtores de biomassa. O país sabe como produzir 64 TWh de eletricidade através de biomassa na próxima década sem prejudicar outros grupos que também dependem economicamente da floresta e atingindo as suas metas relativas às alterações climáticas.

Porque é que é tão difícil para os governos portugueses planearem a longo-prazo? O que impede a cidade de Lisboa de adotar um plano estratégico de desenvolvimento para 2035, como Estocolmo está prestes a desenvolver?

O que impede Portugal, mesmo com um Ministério do Mar, de ter uma visão estratégica de longo prazo para a economia azul como a Ocean Strategy que a Noruega acabou de relançar?

Temos um deficit de espíritos independentes e de espírito coletivo.

É verdade que estratégias nacionais devem ser comandadas napoleonicamente por governos, para ganharem credibilidade. Mas não podem ser exercícios partidários. A função vital de um partido - a conquista e perpetuação do poder - é contrária, pela sua própria natureza, à necessidade de estabelecer planos nacionais que transcendam ideologias e personalismos e englobem diversas fontes e opiniões. É preciso distanciamento e independência.

A National Forest Strategy da Finlândia foi desenvolvida pelo Conselho Nacional da Floresta, uma entidade que reúne desde membros do governo a académicos, de organizações de jovens a entidades trabalhistas, de membros da sociedade civil a empresas florestais e de energia. A estratégia para Estocolmo para 2035, na mesma linha, está a ser desenvolvida, sob a batuta da Câmara Municipal, por um conjunto de entidades da sociedade civil, liderados pela tecnóloga Claudia Olsson.

O planeamento estratégico exige também uma certa rotina social, uma capacidade de sentirmos que pertencemos a um destino comum. Mas os portugueses, juntamente com os polacos, são os europeus que menos confiam em outras pessoas (dados POP/FFMS). Isso gera uma individualização do comportamento social. Uma mistura de chico-espertismo com salve-se quem puder.

Por isso, antes de desenvolver estratégias nacionais, seria importante que discutíssemos as trincheiras que cavamos.Porque é que a autoestima portuguesa é tão baixa e porque é que não gostamos uns dos outros? Porque é que nos demitimos de contribuir coletivamente e permitimos que os partidos políticos, que gostamos de blasfemar, extravasem os seus campos de batalha para colonizar os espaços propícios à sociedade civil?

Mais do que de políticos, precisamos de ajuda terapêutica para planearmos o nosso futuro coletivo.

* Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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