"Mas o que é tu fazes pela Amazónia?"

Este simples Verão, até tem levado muita gente às praias e campos. Eu também já por lá andei à procura de lugar onde estacionar o carro e um espacinho para pôr a toalha. Ninguém cá em casa é muito fã de torrar ao Sol e enfrentar a multidão e à falta de tempo e de férias planeadas fazemos o nosso melhor na luta pelo lazer e pelo objectivo de descansar, sair da roda um bocadinho e esticar as pernas dentro de qualquer coisa que esteja mais fresca do que a temperatura que nos rodeia.

Quem não nos dá descanso é o mundo e o país, envoltos numa paranoia tal que nos indica que estamos a chegar a um sítio do qual será muito difícil sair. Uma espécie de brexit sem acordo com que o se passa à nossa volta e, na minha opinião, uma espécie de crepúsculo dos Deuses, ou dos Ídolos, como filosofava Nietzsche numa das suas obras mais completas acerca do caminho e destino dos Homens. Se eu pedisse a Nietzsche para me explicar quem é que manda em 2019 e como se poderiam categorizar filosoficamente esses líderes, abrindo assim caminho ao seu entendimento, penso que ele ficaria tão estupefacto quanto eu acerca de como as suas políticas desafiam qualquer tentativa de racionalidade. Para começar, é verdade que somos muitos mais que no século XIX. Temos muito mais tempo e espaço de antena, não que o aproveitemos, mas a humanidade tornou-se, pela internet, num grande fórum opinativo. Esta transversalidade de pensamento e discussão poderia até constituir o sonho febril de Descartes ou trazer justiça às proposições de Kant, não fosse praticar exactamente o seu contrário. O grande auditório é apenas um muro que nos devolve o eco.

A Amazónia arde. Nós choramos e apelamos a uma acção que sabemos não ter capacidade para executar, nem nossos mais pequenos gestos quotidianos. Somos reféns de pequenas coisas e hábitos que, em efeito borboleta, queimam as florestas e fazem subir os oceanos. Escusamo-nos a admitir isso e reagimos não comprando mais palhinhas de plástico. Não temos é pudor algum em perguntar ao próximo, que, sem verificar, partilhou uma foto falsa dos incêndios Amazónicos: mas o que é tu fazes pela Amazónia? Pelos vistos, nada. Ou tanto quanto quem lhe faz a pergunta.Pelos vistos, o mesmo que os milhares que choram lágrimas e se desdobram em petições. Com certeza muito menos que as centenas de voluntários, associações, organizações, que durante anos apelam e avisam para a iminente destruição deste espaço. Em todo o caso, a Amazónia arde porque somos todos, e aqui por igual, incapazes de fazer algo em concreto, de abandonar hábitos, de sequer pensar em combater a pequena minoria que vê oportunidade onde os outros assinalam tragédia. A tal minoria que Nietzsche teria dificuldade em definir, porque o seu aparente "descrédito" pelos homens, não chegaria para conceber o requinte de tanta maldade.

Os fogos não se apagam com palavras. O bife que comemos tem, na sua constituição, muito mais que proteína animal. É o objecto que faz a vermelha súmula de todo o seu percurso, desde a criação intensiva de soja para a pecuária até ao centro do nosso prazer. Não estamos a calcular os danos colaterais, estamos num rodízio brasileiro, a ver noticias da Amazónia no nossos telefones. E, sabendo disso, não conseguimos porém deixar de comer a carne nem de usar aquele par de ténis. E é essa escolha, entre várias, que constitui o triunfo da minoria que manda. Senhores da redistribuição miserável da riqueza que todos criam, mandam, também, pelo dividir e conquistar, na moral das gentes. Dão-lhe os meios de comunicação e criam as "verdades" e os "hábitos" que nos juntam à mesa mas que nos dividem em vida.

Cada vez que se tenta encontrar uma linha de casualidade para os efeitos nefastos da acção humana, o principio será, a meu ver, simples. O lince Ibérico quase desapareceu? As dunas estão gastas e a cair? Os Icebergs derretem? A Amazónia arde? Tudo isso se tornou possível quando não soubemos traçar as fronteiras entre o progresso e a natureza, e integrá-los na nossa evolução. Não são os tigres que atacam pessoas na Índia, que são o problema aqui. São as pessoas que construíram as suas casas perto da selva. Cairiam as escarpas arenosas, se aquele café de praia e a casa do Sr. Doutor tivessem sido licenciadas uns bons metros mais atrás? Talvez não, mas da forma como estamos, nunca o saberemos.

Para além de falar sobre isso não temos feito nada pelo mundo. Temos apenas puxado os cabelos uns aos outros e cobrado aos nossos terrenos concidadãos, aquilo que não temos hipótese de todo ou vontade verdadeira de fazermos em conjunto. Nunca tivemos tão pouco poder. Apenas a culpa nos une. Ainda assim, achamos mesmo que somos livres e que se nos mudarmos, mudaremos o mundo. Fica bem numa letra ou num poema mas é apenas outra metáfora da nossa consciente incapacidade.

*O autor deste artigo escreve com o antigo acordo ortográfico

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