O pequeno príncipe que não foi

Neste que é o meu último espaço na TSF, a quem agradeço a rara oportunidade de dar voz a muitos temas da atualidade de quem não vive a azáfama da cidade noutros casos, por defeito da autora, escaparam propositadamente ao pretendido, servindo de eco ao que mais se assemelhavam a crónicas do que a uma opinião, termino como comecei.

Com aquilo que me motiva e motivou a aceitar esse nobre desafio de entrar, nem que fosse por breves momentos, ouvido adentro das pessoas:

"Dia 20 de junho de 2017

Seus passos mansinhos fazem-se sentir no assoalho do meu quarto como de costume.

A mesma hora de sempre. 7:30 da manhã.

Desperto sobressaltada a chamar por ele. "Luís, filho?!"

Olho para o corredor a sua espera, ainda não desperta. Nada.

Sonharei sempre com isso.

Foi a minha primeira noite na nossa casa desde o dia 17 de junho e a sua ausência me povoa.

São passos, brinquedos ruidosos, interjeições e interrogações e o som da sua voz de canarinho a trautear uma qualquer melodia aprendida na escola de música.

Mas é da sua mão pequena de que mais sinto falta. Chegava de mansinho no seu corpo esguio e segurava-me a mão com ternura sem eu dar por ele.

Chamava-se Luís Fernando e era feliz.

Luís do avô brasileiro, Fernando do pai e do avô português e era um menino do mundo. Português, brasileiro e italiano. A mãe das Américas, o pai de Moçambique e o menino de Portugal. São as crianças do futuro, cidadãos do mundo e filhos da sua terra.

O Luís foi mais uma vítima do incêndio do dia 17 de junho e sem ele começa a Grande Tristeza.

Não foi o único. Nove crianças sucumbiram nessa noite maldita em que o inferno fez-se sentir na terra e os Homens emudeceram-se num lugar que se chama Portugal.

Não foi criado para ser um príncipe mas sim livre. Seria médico, filósofo ou simplesmente trapalhão. Era menor que a sua idade e maior que o mundo que o aguardava. Um mundo que não o mereceu.

Com ele findou uma geração de Mendes Silva. Já não haverá sucessão. Morreu o menino, morreu um nome. Uma geração de portugueses que foi apagada dos registos.

Essa solidão que me assola a alma nunca será preenchida.

Filhos são filhos. Únicos na sua individualidade. Queremo-los, nutrimo-los, investimos, fazemos opções de vida tudo a sua volta e com um sorriso nos lábios. De repente, todo um projeto de vida é-nos roubado. A promessa de uma vida. E de forma tão vil. Até na morte deveria haver dignidade.

Já não o levarei pela mão à escola primária. O seu primeiro ano.

Não mais assistirei às suas audições de música.

Não lhe ensinarei o quão misteriosas são as raparigas, porque sim.

Não lhe saberei os dilemas da vida.

Não lhe segurarei os filhos que os queria. "Muitos, mãe". Talvez por ser filho único, talvez por se sentir um "menino sortudo", dizia.

Já anunciava o mano, sem saber que o teria. Era vidente por vezes. Era inclusivo, empático e terno. E era sempre o Hulk. Era tanta coisa... Agora, era.

Calcada na Grande Tristeza nasceu outra mulher. Uma mulher que não sabia existir. E com ela, uma causa. A causa de toda a pessoa marcada pela dor que extravasa, incontida: a defesa da Dignidade dos que pereceram e a sua Justiça, a construção de um Futuro para os que virão e o tomar de Consciência de que não nos podemos calar!"

Volvidos 25 meses da tragédia que assolou Portugal, releio as primeiras páginas desse diário e tenho a sensação que muito se passou desde então, que houve um despertar coletivo para o problema.

Mas o problema estrutural, aquele a que chamamos um "interior de oportunidades", não acompanhou as transformações conjunturais destes dois últimos anos.

Sonhei em tempos que, neste que é o ano de eleições legislativas, o tema da Interioridade seria um tema crucial na agenda dos partidos políticos.

E como é apanágio dos idealistas, parece que errei!

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