O que nos definirá

Até à eleição de Trump, os EUA viviam em tensão entre democratas e republicanos, conservadores e liberais, "maioria branca" e "minorias emergentes". Desde janeiro de 2017, passaram a viver numa espécie de guerra civil entre a América diversa e tolerante e a base Trump, que detém um sentimento ilusório de "pertença" dos EUA. Estes dois mundos odeiam-se mutuamente e não querem ter qualquer ponto de contacto. A busca de consenso está moribunda e as distâncias ideológicas e identitárias beneficiam quem usa a tática do "não interessa a verdade, interessa ter razão". O atual Presidente dos EUA é o principal agente de agravamento de um conflito cuja evolução vai ajudar a definir quem somos.

"Donald Trump está só a ocupar o espaço na Casa Branca. Ele não materializa os princípios, a responsabilidade, a honra, a integridade de um verdadeiro presidente", AYANNA PRESSLEY, congressista democrata do Massachussets.

"A razão pela qual não levamos devidamente a sério a ameaça da supremacia branca explica-se pela necessidade que implicava olhar para a nossa própria cultura. Para nós próprios", HEIDI BEIRICH, diretora do Center"s Intelligence Project.

"Nunca ninguém foi tratado tão injustamente como Donald Trump", DONALD TRUMP, Presidente dos EUA.

Tudo o que se passa na América serve de bússola sobre os ventos que sopram.

O episódio dos insultos de teor racista às quatro congressistas democratas (Ilhan Omar, Rashida Tlaib, Alexandria Ocasio-Cortez e Ayanna Pressley) foi a mais recente prova da ferida aberta na sociedade americana.

A clivagem já existia - mas tem vindo a ser agravada, numa dimensão que dificilmente poderá ter cura, pelo agente provocador menos previsível e menos aconselhável de todos: o Presidente dos Estados Unidos, suposto elemento unificador do país.

Se a função indicaria prudência e coesão, quem neste momento a executa promove a divisão e o ódio. Mas não o faz de modo aleatório ou meramente espontâneo.

Donald Trump foi eleito numa plataforma identitária e nacionalista, explorando sentimentos primários de suposta "pertença" da América de uma maioria branca que tem vindo a perder superioridade numérica, de poder e influência.

No início dos anos 90 do século passado, em cada 100 norte-americanos que iam votar, 88 eram brancos "WASP" (White Anglo Saxon Protestant). Duas décadas depois, em 2012, na reeleição de Barack Obama, esse número já baixou para 72 - e tenderá a reduzir-se ainda mais.

As duas grandes maiorias presidenciais obtidas por um candidato negro e de plataforma política progressista (embora moderadamente integrada no sistema) criou um sobressalto em alguns setores dessa "maioria branca" - sobretudo em estados onde, nos últimos anos, as mudanças da estrutura empresarial, industrial e social criaram mais fraturas.

Os EUA são um país tão complexo e heterogéneo que esses dois movimentos - aparentemente contraditórios - se deram de forma simultânea.

Donald Trump viu no sentimento de "proteção nacionalista identitária" uma oportunidade única de criar uma "base coesa e mobilizada" (precisamente a que o levou à Casa Branca e o mantém com níveis de aprovação acima dos 40%); mulheres jovens, latinos, negros e minorias com outras particularidades foram-se afirmando na política e na América real, não só por reação ao que consideram ser a "afronta Trump" como por movimento natural de uma sociedade que se define por enorme mobilidade (independentemente da cor política da administração federal em funções).

Acresce a tudo isto que o ecossistema mediático e comunicacional favorece, cada vez mais, a disputa cega e surda entre fações. Não interessam os factos, interessa ter razão.

Ora, Donald Trump e a sua base reúnem todas as características para proliferar neste ambiente. É muito mais fácil cavalgar numa mentira "sexy" e bem construída do que defender e explicar uma verdade complexa e que exige tempo para ser sustentada e contextualizada.

O modo como Trump caluniou as quatro congressistas democratas - com termos que chegam a ser insultuosos, porque pressupunham cariz de "intruso" que elas não têm, dado que todas foram eleitas por norte-americanos e três das quatro até nasceram em solo dos EUA - soa a deslocado e com tudo para prejudicar quem lançou tamanha ofensa.

Mas as coisas não são bem assim.

Demora poucos minutos verificar que, quando Trump sugere às quatro para "voltar aos locais de onde vieram", isso significaria, no caso de Alexandria regressar ao Bronx (Nova Iorque); no de Ayanna voltar a Cincinatti, Ohio (Midwest profundo, território Trump!); no de Rashida a Detroit (Michigan, mais Midwest que votou Trump).

Das quatro "guerreiras" do esquadrão democrata (The Squad), só Ilhan Omar nasceu fora dos EUA - na Somália, mais propriamente. Mas a sua "casa" é, há muitos anos, o estado do Minnesota (outro caso de "América real"), onde foi eleita para o Congresso em novembro passado com expressivos 78%.

Chega a ser ridículo que um Presidente que foi eleito com apenas 46% dos votos conteste a legitimidade e fale em "minoria" quando se refere a Ilham Omar, que beneficiou de um apoio percentual (dentro de universos eleitorais diferentes) muitíssimo superior, por parte de quem a elegeu.

Mas, lá está, isto são os factos. Quem apoia Trump não se interessa por tal coisa: quer mesmo é "não perder a razão".

E a "razão" da base trumpiana é ver em Alexandria (descendente de porto-riquenhos), Rashida (com ascendência palestiniana e religião muçulmana), Ayanna (primeira negra a conseguir ser eleita para o Congresso norte-americano em representação do Massachussets) e Ilhan (primeira refugiada muçulmana a chegar a Washington como representante eleita pelos votantes norte-americanos) o "outro". As "intrusas". Aquelas que não fazem parte da América "real", as que têm uma "identidade" diferente da que deseja pôr "America First" e tornar a América "grande outra vez".

A partir do momento em que o Presidente dos EUA usa mentiras descaradas - como alegar que Ilhan Omar festejou o 11 de Setembro de 2001 - para dar gás ao ódio às minorias está a abrir uma "caixa de Pandora" difícil de voltar a fechar.

O impacto dos "tuits" presidenciais foi brutal.

As quatro congressistas reagiram e, de algum modo, aproveitaram o momento para sinalizar uma fação mais radical no Partido Democrata, que defende um ataque cerrado ao Presidente, que passa por tentar o "impeachment" até à última.

E é aqui que as coisas se complicam do ponto de vista político.

Uma primeira reação levar-nos-ia a achar que Trump iria pagar eleitoralmente por comportamento irresponsável. Não está a ser o caso.

Desde o caso dos "tuits", o apoio no eleitorado republicano ao Presidente aumentou cinco pontos percentuais - o que parece avalizar a estratégia de Donald de insultar "o outro lado" para dar gás à sua base. Mesmo fazendo isso com mentiras, quem o apoia sente nele o "campeão" de que precisavam para os defender da "ameaça das minorias emergentes".

O dilema democrata que interessa a Trump

E há também o dilema democrata, que Trump habilmente sabe explorar com casos como este.

Ainda sem um candidato presidencial definido ou com força suficiente para encarar o duelo final com Trump numa perspetiva de claro favoritismo (Biden chegou a ter grande avanço, mas está a perder vantagem e tem muitos "contras"), o campo democrata vai marcando passo numa dualidade perigosa e de difícil resolução.

A via Joe Biden e Nancy Pelosi é a de um maior centrismo e contenção - tanto o "frontrunner" das primárias democratas como a "speaker" do Congresso consideram que Trump deve ser derrotado nas urnas e não nos expedientes legislativos e judiciais.

O caminho que está a prevalecer e a ganhar cada vez mais força política e mediática, contudo, é o de Elizabeth Warren e Kamala Harris (nas primárias) e das quatro congressistas da "Squad" (na Câmara dos Representantes) de subir o tom dos ataques ao Presidente.

Este episódio dos "tuits" de teor racista custou a Donald Trump a primeira condenação de um Presidente por parte do Congresso em 107 anos.

Mas talvez lhe tenha garantido, acima de tudo, uma fratura no partido que se lhe opõe, aumentando assim, fortemente, as condições para que a sua estratégia de reeleição tenha viabilidade, apesar de nunca ter conseguido gozar da aprovação da maioria dos norte-americanos.

É neste ponto que estão os EUA, neste verão de 2019: o Presidente é um agente de divisão e provocação e tem uma base fiel, mobilizada e coesa; a oposição tem um universo "anti-Trump" maioritário, mas está a caminhar no sentido menos aconselhável para o agarrar por completo.

Novembro de 2016 mostrou-nos que as eleições presidenciais nos EUA não se ganham com uma maioria aritmética - ganham-se pela estratégia mais eficaz.

É certo que a história nem sempre se repete.

Mas quando vemos os dados a alinharem-se de modo tão idêntico, é impossível não imaginar que isso poderá voltar a acontecer.

* autor de quatro livros sobre presidências norte-americanas

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