Porque é que algumas pessoas desejam ser primeiro-ministro?

O cargo de Primeiro-Ministro exige um doloroso sacrifício físico, privação do contacto com a família e golpes mortais à privacidade, além de estimular o desenvolvimento de anormalidades químicas e distúrbios hormonais. Tudo por um salário muito menor do que um emprego sénior no setor privado. Mas, a poucos meses das eleições de outubro de 2019, continua a ser o cargo mais almejado da nação.

Porque é que a ânsia do poder prevalece sobre a adversidade?

É uma pergunta que faço desde que o meu filho adolescente participou há uns anos, como cobaia, num estudo sobre poder e tomada de decisões feito pelo Center for Brain Science da Universidade de Harvard. São inúmeros os estudos da universidade que desaguam na ideia de que a necessidade de controlo e poder é um mecanismo de compensação ou de superação. A intensidade varia, mas quase todos nós sentimos conforto quando conseguimos influenciar.

Em muitos casos, a busca pelo poder reflete uma defesa contra sentimentos de inadequação, fraqueza, medo ou de falta de confiança. Crianças dominadas na infância, frustradas por não conseguirem preencher as expectativas de pais perfeccionistas ou insuficientemente amadas, são mais afoitas ao controlo (Prof. David McClelland, Universidade de Harvard).

Até aqui quase nada de novo. Mas outros estudos - já sem o meu filho como cobaia - dão-nos pistas sobre o que poderá ajudar uma pessoa na sua caminhada em direção ao poder. Não basta querer tê-lo. Temos que deixar que o tenha.

Estudos feitos pela Universidade da Califórnia, Berkeley (Prof. Dacher Keltner) ou Universidade de Emory (Prof. Frans de Waal), indicam que a autoridade está vinculada à empatia. Aceitamos mais facilmente a autoridade de quem gostamos mais. O "Virtù" de Maquiavel, aquele que não obedece aos preceitos da moral, não estaria qualificado para ganhar eleições em tempos modernos.

Mas, ao chegar ao cargo que lhe confere poder, uma pessoa muda. A literatura científica é quase consensual. Pessoas com autoridade tendem a comportar-se como pacientes neurológicos com o lóbulo frontal danificado, uma área associada à tomada de decisões e à convivência. O poder torna-nos menos sensíveis às preocupações e emoções dos outros e facilita comportamentos impulsivos e imprudentes (Prof. Adam Galinsky, Universidade de Columbia).

Além disso, o poder também é viciante, principalmente nos homens: desencadeia um aumento de testosterona, o que conduz a uma sensação de bem-estar e autoconfiança (Prof. Ian Robertson, Trinity College).

Tudo isto não significa que a prática da política é propícia à degeneração. Existe nobreza na arte de conduzir. Mas, em vez de valorizarmos exclusivamente aqueles que fizeram toda a sua carreira nos corredores do poder, deveríamos estimar aqueles que entraram na política sem precisar dela e saíram antes de começar a precisar.

Usufruir do poder com desprendimento é a verdadeira virtude.

Rodrigo Tavares é fundador e presidente do Granito Group. A sua trajetória académica inclui as universidades de Harvard, Columbia, Gotemburgo e Califórnia-Berkeley. Foi nomeado Young Global Leader pelo Fórum Económico Mundial.

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