Um ministro que arde, não inflama, mas pode romper

Se o pior cego é o que não quer ver, o pior político é o que não aprende nada com o passado. A arrogância do poder e de umas quantas sondagens que deixam o PS cada vez mais confortável nas intenções de voto ajudam a explicar o discurso inenarrável de Eduardo Cabrita na última semana. Mas cuidado com o excesso de confiança. Ele pode ser fatal.

Num país ainda traumatizado pelas tragédias de 2017, se há tema que devia estar a ser tratado com pinças é este, o dos incêndios. Naquele ano, não foram apenas as vidas que se perderam, foi a confiança dos cidadãos no Estado que caiu para mínimos, que vão demorar anos a recuperar. Isto já para não falar da gestão política desastrosa protagonizada à época por Constança Urbano de Sousa e pelo próprio António Costa, que só terminou quando o Presidente da República demitiu a ministra em direto, naquela que foi a maior humilhação política que este Governo já sofreu. Quem não se lembra das declarações ora frágeis ora irritadas da ministra? E do primeiro-ministro em direto nas televisões a virar-se contra os jornalistas, numa estafada tática política de fuga para a frente?

O episódio das golas que não são inflamáveis, mas ardem - como assim? - seria apenas uma patetice do governo e mais um exemplo de dinheiro público mal gasto, se se resumisse a uns brindes que vão acrescentar ainda mais lixo à casa dos portugueses.

O grave nesta história é que ela é uma espécie de metáfora da forma como o Partido Socialista se comporta quando está no poder. Tudo serve para alimentar a grande família socialista e é preciso aproveitar enquanto se está no Governo, que a seguir podem vir outros e a torneira fecha-se.

Quando são apanhados, têm uma espécie de guião que seguem à risca: primeiro ficam em silêncio, pode ser que a coisa passe sem provocar grandes danos; depois indignam-se e atiram as culpas para alguém. Quem ousa colocar em causa a competência e as boas intenções do Governo? Segue-se a irritação com os jornalistas, esses chatos que não os largam a fazer perguntas. E, por fim, quando já não é possível escapar, sacrificam um peão qualquer, numa tentativa já desesperada de estancar a polémica e evitar que os verdadeiros responsáveis políticos tenham de assumir as suas responsabilidades.

No caso das golas, Eduardo Cabrita seguiu este guião à risca. Primeiro fez-se de morto e ficou horas sem dar qualquer explicação. Depois atirou as culpas para a Proteção Civil, como se esta entidade não fosse tutelada por ele. Como nem a primeira nem a segunda estratégia funcionaram, atirou-se à jugular dos jornalistas, mas acabou a cair num ridículo ainda maior. E, no final, lá demitiu o adjunto do secretário de Estado, que as golas - que não são inflamáveis, mas ardem - já lhe estavam a queimar as mãos.

O que Eduardo Cabrita parece ainda não ter compreendido é que há responsabilidades políticas que continuam por assumir e, desta vez, não adianta dar uns toquezinhos nos microfones dos jornalistas em tom irónico. No Ministério da Administração Interna continua em funções um secretário de Estado que foi o principal responsável por este episódio lamentável e não é a demissão de um "técnico" que resolve isso.

Cada dia que José Artur Neves se mantiver em funções, é o ministro que se queima mais um bocadinho e é o Governo que continua a arder em lume brando. Bem sei que a arrogância de quem acha que tem as eleições no papo e não sente sequer uma leve brisa de oposição dá nisto. Mas as pessoas não são estúpidas. Ou, pelo menos, eu quero continuar a acreditar que não são.

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