Vem aí o diabo e não é o Pardal

Se acham que uma nova greve dos motoristas é uma coisa chata, imaginem uma nova crise económica, de proporções ainda impossíveis de prever. Não, eu não encarnei Pedro Passos Coelho e sim, eu sei que é chato estar a falar de crises em pleno mês de agosto, com temperaturas de 40 graus, mas talvez seja útil começarmos, devagarinho, a olhar para fora da nossa bolha pré-eleitoral e prepararmo-nos para o impacto.

Vem nos livros: depois da prosperidade vem a crise. Depois da crise regressa sempre alguma prosperidade. E por aí fora. A história é tão antiga quanto a própria história em si e é mais ou menos como a morte: se à crise ninguém escapa, nem rei, nem papa, nós, os comuns mortais que acabamos sempre por a pagar, não escapamos, seguramente. Mas, tal como a morte, nunca sabemos quando ela chega.

Os sinais são cada vez mais evidentes e estão mesmo aqui, a bater-nos à porta: Itália, uma das maiores economias da zona euro, está com um crescimento próximo do zero. França vai pelo mesmo caminho. A vizinha Espanha também viu a economia encolher no segundo trimestre do ano para 0,5%. E, pior ainda, a Alemanha, que é o motor deste grande "carro" chamado Zona Euro, está já à beira de uma recessão.

Foi o próprio banco central alemão que veio fazer o alerta esta semana. A maior economia europeia pode estar a afundar-se ainda mais durante estes meses de verão, resultado, sobretudo, de uma desaceleração no setor industrial. Não será, seguramente, uma despedida gloriosa para a ex-toda-poderosa Angela Merkel, que já começou a acenar com incentivos à economia no valor de 50 milhões de euros e a jurar a pés juntos que a Alemanha está preparadíssima para enfrentar uma eventual crise. O Der Spiegel escrevia a semana passada que, entre o Governo alemão, já se admite a possibilidade de ultrapassar os limites orçamentais que a Alemanha defendeu com unhas e dentes no passado. Onde é que já vimos este filme?

Cada vez mais longe e, no entanto, tão perto, o Reino Unido, que anda entretido a discutir o imbróglio do Brexit em que se meteu, viu a sua economia contrair no segundo trimestre deste ano, algo que não acontecia desde 2012. E não será preciso explicar que, mesmo sem estar na zona euro, a economia britânica tem um impacto significativo nos países da moeda única.

É pegar na calculadora, que as contas são todas de subtrair: entre abril e junho deste ano, o conjunto da União Europeia cresceu 0,2%. Que é praticamente o mesmo que dizer que não cresceu. Isto diz-lhe alguma coisa?

Fosse este um problema apenas da Europa e já era grave. Mas a ameaça de uma crise económica paira, neste momento, sobre quase todos os continentes. Na América Latina os alarmes já começaram a tocar, no Brasil, na Argentina e no México. A oriente, em Singapura e em Hong-Kong, os sinais são igualmente muito preocupantes. E a própria China, segunda maior potência económica mundial, registou no segundo trimestre o crescimento mais fraco desde 1992. Isso mesmo. Leu bem. Há 17 anos que a China não crescia tão pouco.

A guerra comercial com os Estados Unidos é parte significativa da explicação. Mas a grande pergunta que continua sem resposta neste conflito é se, entre mortos e feridos, alguém se salvará no fim. Em Pequim, a ordem é para estimular o consumo e, com isso, procurar meter um travão neste abrandamento económico. Do lado de lá do oceano, Trump também já anda a pensar em estímulos que possam evitar um contágio à economia norte-americana.

A verdade é que, em abril deste ano, Christine Lagarde, diretora-geral do FMI, já tinha começado a avisar que 70% da economia mundial estava a abrandar. E os mercados - essa entidade abstrata capaz de ler nas cartas o futuro do mundo - andam há meses a gritar que vem aí uma recessão.

E Portugal? Bem, por cá, e para grande felicidade dos partidos da geringonça, continuamos a resistir a esta espécie de epidemia que parece estar a alastrar-se um pouco por todo mundo. Ou isso ou vamos sofrer ao retardador. O que, normalmente, costuma ser pior.

Se é verdade que, nos últimos quatro anos, a economia portuguesa teve um ótimo desempenho e que não se resolvem em quatro anos problemas que têm décadas, não é menos verdade que, estruturalmente, está quase tudo por fazer. A começar pelo peso da dívida, que continua a ser astronómico, o que, a médio prazo, pode ter consequências devastadoras. O Estado continua a carregar quase todos os fardos que há anos o tornam lento, ineficiente e, sobretudo, que o impedem de cumprir a sua missão principal: servir bem as pessoas. E se o Estado continua ineficiente, os impostos continuam a compensar essa ineficiência.

Por isso, sim, quando o diabo vier - e ele virá, só não sabemos quando -, Portugal não estará devidamente preparado para o enfrentar. Por tudo o que foi descrito atrás, mas também porque continuamos a ser uma economia pequena e muito dependente do exterior.

Seguramente este não será um tema na próxima campanha eleitoral. Para o PSD e para o CDS, o diabo passou a ser um tema tabu. Para a esquerda, o único diabo é a direita. E o PS, que só conhece o Deus Centeno, já se esqueceu de quem é o diabo. Se tudo correr bem - entenda-se, uma maioria absoluta - e se tiver de o reencontrar nos próximos anos, está politicamente mais bem preparado para lhe conseguir resistir. O país é que pode não estar.

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