Isto não é a Segunda Guerra Mundial

Ao contrário do que se previa, o discurso de Dia da Vitória de Vladimir Putin não representou qualquer mudança. Não houve declaração oficial de guerra, mobilização de tropas, ameaças nucleares ou proclamação de vitória. Para Daniel Oliveira, "o elemento mais importante foi o recurso à História".

O Presidente russo, e não só, "tentam convencer-nos de que estamos a reviver a reedição do acontecimento mais traumático do século XX para a Europa. Como se essa repetição fosse uma inevitabilidade".

Putin prometeu combater o nazismo, narrativa que repete desde o início da guerra na Ucrânia. Aproveitando-se da "história e natureza do batalhão Azov e da existência de forças neonazis ucranianas (que também não faltam na Rússia, a começar pelo grupo Wagner), transformou a Ucrânia num país tomado por nazis que deve ser libertado".

Ora, lembra Daniel Oliveira, "a Ucrânia não invadiu ninguém, nem o povo supostamente libertado deseja o libertador".

Por seu lado, o ministro da Defesa britânico comparou as tropas russas às do regime nazi e afirmou que o círculo íntimo de Putin espalhava o fascismo e a tirania de há 70 anos.

"O combate pela memória é saber quem é o nazi, mas parece haver um consenso de que estamos a viver a repetição da Segunda Guerra Mundial." Não estamos, reforça Daniel Oliveira, e explica porquê:

"Não se confrontam projetos e propostas políticas para o mundo; o ocupante não tem capacidade de tomar a Europa e está em decadência, não em ascensão." Além disso, a guerra está circunscrita a um território.

E, "apesar de ser um déspota, Putin não é Hitler, e apesar de ser um resistente, e Zelensky não é Churchill".

"A História é contada e recontada milhares de vezes à luz das necessidades de quem a conta", mas não se repete, aponta o jornalista.

Outra grande diferença: se esta for uma repetição da Segunda Guerra Mundial acabará com ataque nuclear como os que arrasaram as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, mas desta vez "os dois lados têm a mesma capacidade de acabar com o planeta".

Todas estas comparações são "propaganda", condena Daniel Oliveira. Constituem uma retórica que, em vez de procurar a paz, potencia uma "caminhada cega e acrítica para o desastre".

"Não me impressiona que um ditador use esta retórica, o que me espanta é que democratas pareçam querer dançar ao som da sua música, copiar os tons da sua propaganda. Quer dizer que é ele [Putin] que lidera", condena.

Texto: Carolina Rico

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