Nada voltou a ser como antes

"Fomos para o Afeganistão por causa dos horríveis ataques do 11 de Setembro de 2001, que ocorreram há 20 anos. Isso não pode explicar porque devíamos permanecer lá em 2021. Mais do que regressar à guerra com os Talibãs, temos que nos focar nos desafios do Futuro"
Joe Biden, Presidente dos EUA, abril 2021

"Dez anos mais tarde, deixámos muito claro que a América não se encolhe nem se esconde atrás dos muros da desconfiança. Os terroristas que nos atacaram não conseguiram destruir o caráter do nosso povo, a resiliência do nosso país e a eternidade dos nossos valores"
Barack Obama, então Presidente dos EUA, mensagem dedicada ao décimo aniversário do 11 de Setembro de 2001 (11/9/2011)

Há vinte anos, o mundo entrava em estado de choque.

A única superpotência, que até então vivia na ilusão de ser inatacável, revelava uma surpreendente vulnerabilidade.

Num atentado terrorista de dimensões inimagináveis, vimos o que nunca pensámos ser possível ver: o coração financeiro de Manhattan tornou-se num cenário apocalíptico, depois do embate de dois aviões comerciais, sequestrados por comandos terroristas da Al-Qaeda, que provocou, minutos depois, a derrocada das Torres Gémeas, ícones do poder financeiro de Nova Iorque.

Na mesma manhã, o Pentágono era atacado, com a queda de um terceiro avião desviado pelos terroristas. O Capitólio e, eventualmente, a Casa Branca eram os restantes alvos dos planos de Osama Bin Laden, um filho de um milionário saudita que tinha fugido para o Afeganistão e havia sido apontado, nos anos anteriores ao terror do 11 de Setembro de 2001, como o preparador de ataques a alvos americanos (camiões armadilhados explodiram diante das embaixadas dos EUA na Tanzânia e no Quénia, em agosto de 1998, e uma lancha suicida lançou-se, em outubro de 2000, contra o navio de guerra USS Cole, que estava ancorado no Iémen).

Mas o voo 93 da United Airlines, o quarto avião sequestrado pelos terroristas da Al-Qaeda, viria a cair na Pensilvânia.

As duas faces da retaliação

Feridos no seu orgulho, depois de terem sido atacados de forma inimaginável, os Estados Unidos tinham que reagir. Não seria, sequer, admissível outro cenário.

A questão estava na forma, na sustentação e no enquadramento internacional.

As ligações de Bin Laden e da Al-Qaeda ao Afeganistão tornaram a frente afegã no primeiro passo quase inevitável. Quatro semanas depois do 9/11, os EUA voltavam à guerra.

Foi o início de um longo e pesadíssimo caminho, que viria a terminar, pelo menos na sua esfera militar, no passado dia 31 de agosto, duas décadas depois.

A argumentação em torno da guerra afegã tinha fundamentos sólidos, mas a guerra do Iraque viria a revelar-se, ano e meio depois, por abril de 2003, uma trágica consequência do oportunismo dos "neocons" que passaram a dominar ideologicamente o ex-Presidente Bush.

O resto da história é conhecido: anos e anos a acumular faraónicos gastos de guerra (2,2 "trillion" dólares, mais 19 biliões perdidos para a corrupção do anterior governo afegão) e mortes (2461 militares americanas, às quais se devem somar civis contratados, 66 mil forças de segurança afegãs, 52 mil insurgentes e 47760 civis, incluindo 72 jornalistas e pessoas ligadas a órgãos media).

O desgaste político das guerras terá, aliás, sido o princípio do fim para George W. Bush e os republicanos, abrindo caminho a uma mudança inesperada, em 2008. Barack Obama foi eleito como o "herói antiguerra", mas ainda antes de tomar a Casa Branca avisara: "A guerra do Iraque foi estúpida, a guerra no Afeganistão é necessária".

Bin Laden, entretanto ultrapassado como ícone do terrorismo perante a pulverização da Al-Qaeda em ramificações pouco ortodoxas, foi mesmo eliminado: não por Bush, mas por Obama.

Como, na altura, bem notara o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, David Miliband, "Bin Laden foi notícia, mas não fez história".

A "jihad" tornou-se global - foi essa a principal consequência do 11 de Setembro de 2001.

Numa espécie de "ciclo de eterno retorno", e depois de nos últimos anos essa ameaça ter perdido força na sequência da destruição do "califado" no Iraque e na Síria por parte da aliança entre forças internacionais lideradas por Obama, e depois por Trump, com combatentes locais no terreno, o "jihadismo" terrorista pode estar de regresso, pela via do Daesh e suas sucursais, como o Daesh-K, inspiradas pela saída americana do Afeganistão.

Duas décadas depois, a retaliação americana no Afeganistão não garantiu uma alternativa viável aos taliban. Revelou-se apenas um intervalo ao extremismo, com este regresso trágico. Pelo meio, houve custos financeiros, humanos, políticos e de reputação brutais. E perdemos privacidade em nome de uma (suposta) maior segurança.

Foi tudo mau? Não. Nestes 20 anos, o Afeganistão evoluiu imenso em índices como a alfabetização ou a presença da mulher na sociedade. Mas isso aumenta ainda mais o sentimento paradoxal do novo retrocesso que se adivinha.

A reconstrução

"Deixar o Ground Zero em ruínas teria sido impossível neste país. Ruínas não é connosco"
Erika Doss, historiadora de arte, autora do livro "Memorial Mania"

A América, que no plano político continua profundamente dividida, continua a ser um caso à parte em momentos como este.

A forma absolutamente extraordinária como os nova-iorquinos conseguiram recuperar do trauma só se explica pela noção de orgulho que sentem pela "cidade que nunca dorme", para muitos aquela que é mesmo "the best city in the world", a "melhor cidade do Mundo".

Rudy Giuliani -- que estava de saída da presidência da Câmara de Nova Iorque quando, subitamente, se deu no centro do momento mais crítico da História recente americana -- costumava dizer, quando ainda era mayor de NYC, que tinha "o melhor emprego do mundo" porque trabalhava para a cidade que amava e ainda lhe pagavam para isso.

Nas memórias, ainda muito dolorosas, dos 20 anos do 11 de Setembro, falou-se muito, por estes dias, de coragem, inquietação e medo. E sobreveio, acima de tudo, a resiliência dos norte-americanos. Nos momentos de extrema dificuldade, lá estão eles a provar que continuam a ser um grande povo.

Talvez seja essa a maior lição do dia infame que aconteceu há duas décadas.

A perda de poder

A grande conclusão que devemos tirar é que nestes 20 anos a América perdeu poder - de uma forma que ainda tenta minimizar, mas que provavelmente será inelutável.

Ainda é a maior potência do mundo, mas em aspetos como a Inteligência Artificial ou o 5G, decisivos para o futuro próximo, já está atrás da China.

Em 2001, 80% dos países no mundo tinham os EUA como principal parceiro comercial. Hoje, 85% dos países do mundo têm a China como principal parceiro com quem estabelecem trocas comerciais.

Em duas décadas, os EUA perderam poder relativo: valiam quase um quarto da total riqueza mundial em 2001 (23%), hoje não chegam a um quinto (18%). A China só valia 7% em 2001, hoje pisa os calcanhares americanos (16%), em mais do dobro de crescimento relativo que os chineses lograram obter em apenas 20 anos.

É todo um mundo que mudou nestas duas décadas.

O esforço afegão fez sentido nos primeiros anos para a América: os taliban foram corridos do poder, as bases da Al-Qaeda foram destruídas, Bin Laden foi apanhado e morto no Paquistão.

A primeira década teve sucessos para mostrar. O problema foi gerir a segunda década.

Bush filho, que teve 91% de popularidade no dia seguinte ao 11 de Setembro de 2001, deixou a Casa Branca em janeiro de 2009 com mínimos abaixo dos 30% -- e o desgaste das guerras contou muito para isso.

A partir de 2014, quando Barack Obama, a meio do segundo mandato presidencial, anunciou o fim das operações militares, tratou-se essencialmente de conseguir responder a esta pergunta: "Como é que os EUA vão conseguir sair daquilo sem grandes riscos ou sem humilhações?".

15 de agosto de 2021 provou, de forma embaraçosa, como era difícil responder a essa dúvida, em forma de inquietação.

O fim de uma era

As duas décadas do 11 de Setembro de 2001 marcam a consumação de uma tendência que, na verdade, já se avolumava há quase uma década: o fim da era intervencionista americana no "Grande Médio Oriente".

Há muito que os EUA não estavam de corpo e alma nas suas duas guerras simultâneas do início do século XXI: Afeganistão e Iraque.

A perceção de que o que estava a acontecer no terreno não era positivo e em nada beneficiava os interesses americanos foi fazendo crescer a ideia, nas lideranças políticas dos dois partidos do sistema em Washington, de que havia que tirar conclusões do que a própria opinião pública americana exigia: tinha chegado o tempo de retirar.

A noção de que se gastou dinheiro a mais e de que se perderam vidas humanas inutilmente foi sendo cada vez maior. E, sobretudo, o sentimento de que a continuação de tropas americanas no terreno seria um erro cada vez mais custoso politicamente foi cada vez maior.

De tal modo esse sentimento era dominante que a saída do Afeganistão criou o último grande consenso numa América cada vez mais polarizada politicamente: democratas e republicanos comungavam da urgência de consumar a retirada.

O intervencionismo em cenários propícios à existência de totalitarismos passou a ser, em poucas décadas, de popular a irrealista na narrativa político-militar americana.

É um dilema complicado: intervir tem o preço elevado que pudemos verificar nos últimos anos - mas não intervir é também um risco.

Acima de tudo, passámos para a era das escolhas seletivas: escolher as "guerras certas", acertar nos alvos prioritários, alocar os recursos adequados às necessidades, sem que isso provoque desequilíbrios dramáticos na gestão interna das agendas políticas de quem foi eleito em nome de outras coisas - não de levar a novos esforços de guerra.

Os EUA ainda são a maior potência mundial. Mas as duas décadas que passaram entre o início e este fim com traços humilhantes da Guerra do Afeganistão ditaram uma perda do poder relativo norte-americano que obriga Washington a fazer escolhas difíceis.

Teremos de nos habituar a escolher de que lado queremos estar neste terrível dilema: queremos América intervencionista ou assumimos o "declínio"?

Queremos que os EUA estejam presentes no terreno ou preferimos o pós-mundo unipolar, nesta fase algures entre o multipolar e uma futura bipolaridade para breve entre Estados Unidos e China.

Em que ficamos?

As transições de poder costumam ser lentas. O que se passou a 15 de agosto foi um acelerador, que em vez de clarificar desordenou.

E agora, Joe?

A presidência de Joe Biden pode ser identificada, até agora, por duas fases de tons muito distintos: o primeiro meio ano foi marcado pelo sucesso na vacinação, pela recuperação económica e pela capacidade de se posicionar como aquele que iria romper com o que de mais inaceitável a Presidência Trump tinha significado; mas depois veio 15 de agosto.

A atual fase da Presidência Biden é ainda a da crise marcada pela humilhação da saída desordenada do Afeganistão, que, após 20 anos de ocupação americana, volta a estar nas mãos daqueles que, em 2001, foram derrotados num curto espaço de tempo: os taliban.

Biden está a fazer tudo para virar a agulha da atenção para o combate à pandemia e em medidas de apoio à classe média e de exigência fiscal às grandes empresas.

Mas, para conseguir seguir em frente, terá de saber lidar com o fracasso no Afeganistão. É uma mancha que não vai desaparecer.

A chave será a de mostrar que os pontos fortes (que foram muitos nos primeiros sete meses) vão superar este embaraço monumental.

O que parecia uma decisão certa e segura - a consumação da retirada - passou a ser algo que merecia apoio bipartidário para se tornar num símbolo de fraqueza, que marca o "declínio" que muitos americanos, mesmo não querendo a continuação da guerra, não gostam de aceitar.

Com menos supremacia, menos riqueza e menos respaldo do eleitorado interno por aventuras caras e inconsequente no "Grande Médio Oriente", a América pode virar-se, em definitivo, para a contenção da China, realocando dinheiro, capacidade militar e recursos humanos para o continente asiático.

O grande problema é que, em política, nada é inócuo.

Biden elencou de forma certeira os principais riscos e ameaças para a América em 2021: a ascensão da China, o ressurgimento da Rússia, os ataques "cyber" de chineses, russos, iranianos e de grupos terroristas que "migraram" o seu espaço de atuação para essa nova esfera; a emergência climática; a revolução digital, o 5G e a Inteligência Artificial.

O Afeganistão não estava, por isso, no mosaico de ameaças ao poder americano em 2021.

Parecia, de resto, um tema anacrónico, muito "2001", muito "Al-Qaeda e Bin Laden nas grutas de Tora Bora", pré Daesh a publicar vídeos chocantes, pré-crise financeira, pré-redes sociais, pré-Internet 3.0, pré-Brexit, pré-"pós-verdade", pré-Trump.

A Guerra do Afeganistão começou na sequência da ligação identificada pelos EUA entre os taliban e a Al-Qaeda, então sob a liderança de Osama Bin Laden, o principal responsável pelos atentados em Nova Iorque e Washington. Teve início na Presidência George W. Bush, continuou na Presidência Obama e, apesar das promessas de retirada total, prosseguiu nos anos Trump - chegando, com Joe Biden, ao quarto Presidente norte-americano.

América, 2021

A América de 2021 tem diferenças gigantescas em relação a 2001.

Um em cada três americanos vivem em condados que, neste verão, foram alvo de algum tipo de eventos extremos, relacionados com alterações climáticas (incêndios devastadores, temperaturas recorde, furacões, inundações, cheias).

A polarização política, crescente há uma década e acelerada em exponencial nos quatro anos em que Donald Trump ocupou a Casa Branca, teve o seu auge a 6 de janeiro, com o ataque ao Capitólio, e infeta a boa convivência entre comunidades e a própria comunicação saudável no seio familiar.

Os casos de recusa vacinal em plena pandemia geraram, até, situações, sobretudo em "estados Trump", de americanos a serem vacinados às escondidas dos familiares, por receio de represálias ou censura.

O país que mais vacinas tinha para dar à sua população anda há meses estagnado na caminhada para a "imunidade de grupo" - não por falta de recursos, mas por incapacidade de convencer uma fatia muito significativa dos seus próprios habitantes de que não é racional recear mais a vacina do que a doença.

O aumento dos casos de Covid está a prejudicar a recuperação económica, reduzindo o crescimento do emprego em áreas-chave e abalando a confiança do consumidor. Isso torna-se especialmente preocupante, porque acontece quando milhões de americanos estão prestes a perder benefícios federais no apoio a desempregados.

O resultado é uma desaceleração em tudo, desde os gastos do consumidor até ao emprego em setores duramente atingidos, como o entretenimento e a hotelaria, que se baseiam nas interações pessoais.

Ainda assim, o presidente Joe Biden destaca que estamos a assistir a uma "recuperação económica durável e forte": "O plano Biden está a funcionar. Estamos a obter resultados. A América está em marca outra vez".

A retórica positiva do Presidente sobre a economia contrasta, no entanto, com o número dececionante de novos empregos em agosto: foram criados 235 mil novos postos de trabalho no último mês nos EUA, bem abaixo dos 500 a 600 mil esperados.

Biden atribuiu a culpa pelo crescimento lento dos empregos nos EUA ao "impacto da variante Delta". Mas também afirmou que o seu Plano de Recuperação e a estratégia de vacinação ajudaram a impulsionar a economia, mesmo quando a variante Delta disparou o ressurgimento da pandemia.

Coragem que se transformou no primeiro grande erro

Joe Biden teve coragem em concretizar a retirada do Afeganistão. Teve a coragem de concretizar algo que os seus dois antecessores preferiram adiar. Obama e Trump também anunciaram a retirada - mas não quiseram ficar com o risco do caos e passaram a bola a quem vinha a seguir.

Biden foi claro: "Sou o quarto Presidente a comandar uma guerra no Afeganistão que os próprios afegãos não querem combater. Não passarei esse fardo a um quinto". Foi melhor fazer isto agora - mesmo com os riscos tremendos que implicou - do que fazê-lo daqui a um ano, dois anos ou dez anos.

Mas pode ter sido o seu primeiro grande erro.

A jogada foi muito arriscada, terá sido mal calculada e, acima de tudo, ditou o sinal definitivo de que o foco da administração americana deixou de estar na alocação de recursos (humanos e financeiros) muito significativos em cenários longe do território dos EUA.

No livro "Joe Biden - o Homem e as suas Circunstâncias" (Prime Books, maio 2021), aponto, abordando a perspetiva de saída, que, meses depois, Joe Biden viria mesmo a concretizar: "Joe Biden tem razão na sentença de que a Guerra do Afeganistão era um problema de 2001 e não se integra no lote de maiores desafios que os EUA enfrentam nesta década 20/30. Mas talvez arrisque demasiado ao garantir, em abril, que todos os soldados norte-americanos estarão a 11 de setembro fora do Afeganistão. É uma jogada com muitos pontos de interrogação. Veremos se não virá ainda a tornar-se o primeiro grande erro do até agora muito bem-sucedido Joe Biden."

Infelizmente, foi mesmo.

*Autor de cinco livro sobre presidências americanas

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