Não se adivinha nada de bom

Os discursos do cardeal José Tolentino Mendonça e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no 10 de Junho, mereciam mais atenção. Convocados que fomos para pensar diferente, decidir diferente, agir diferente, não precisamos nem de um dia para fazer o que sempre fizemos, gastando energia com todas as polémicas que nos puseram na frente. Como a nova polémica serve para fazer esquecer a anterior, vivemos como se não tivéssemos memória.

Bem prega o Presidente, lembrando a oportunidade desperdiçada com a outra epidemia há 100 anos, que acabou por gerar uma crise económica e depois uma crise política. Seguiu-se quase meio século de uma ditadura. Tolentino Mendonça defendeu que "Desconfinar não é simplesmente voltar a ocupar o espaço" e foi secundado por Marcelo Rebelo de Sousa que a todo o momento nos interpelou para a necessidade de "recriar" a sociedade que somos.

Nesta crise global, há de certo soluções que terão de ser globais, mas Portugal tem problemas estruturais que ninguém pode resolver por nós. Despejar dinheiro na economia parece sempre a solução milagrosa, ajuda a mitigar a dor, mas nunca nos curou. A última vez que o fizemos agravou a crise que estava em curso.

Ouvindo o debate político, percebemos que os partidos não têm disponibilidade para fazer diferente, falando verdade aos portugueses, perdendo menos tempo com números e estatísticas e mais com ideias que tornem viável a democracia em que vivemos. Quanto mais desigual se torna a sociedade, quanto mais pobreza a economia gera, mais longe estamos de perceber do que nos falaram Tolentino Mendonça e Marcelo Rebelo de Sousa e mais perto ficamos de entregar o nosso destino aos radicalismos que já contaminaram irremediavelmente o debate público.

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