O abismo do PCP

"How did you bankrupt? Gradually, then suddenly". Com este brevíssimo diálogo, Hemingway resume a falência de um capitalista, entre a vertigem e a previsibilidade dos sintomas que não se quiseram ver. Ironicamente, com o PCP também está a ser assim.

O PCP foi o refúgio clandestino para quem em Portugal continental, um país pobre, pouco instruído e fechado ao mundo, se opunha ao regime de Salazar. Não é por acaso que, no pós-25 de Abril, a adesão do PCP germinou junto das classes desfavorecidas, os assalariados agrícolas dos latifúndios a sul do Tejo ou a massa operária da cintura industrial da Grande Lisboa.

Nas legislativas de 1979, o PCP, através da APU, chegou aos 19% das intenções de voto, com um milhão e 130 mil votos a elegerem 47 deputados.

Foi precisamente a abertura e o desenvolvimento económico do país que impediram o PCP de crescer. As alterações estruturais no nosso tecido económico, com mais Pequenas e Médias Empresas, mais empresas de serviços, menos grandes grupos industriais, menos latifúndios e mais pequenos empresários agrícolas alavancaram mudanças sociais profundas. E a mobilidade permitiu que filhos e netos de operários e trabalhadores agrícolas estudassem e passassem a ter horizontes para além dos oferecidos pelo Comité Central.

Enquanto o país propunha a adesão à CEE, a economia de mercado e o estado social europeu, o PCP vendia a União Soviética como o paraíso na terra, e fê-lo até o muro cair. Aliás, ainda hoje o faz.

A alteração de nosso tecido económico e a falta de um modelo de desenvolvimento apelativo às novas gerações foram as causas estruturais que provocaram a erosão eleitoral do PCP.

Entre 1991 e 2015, o PCP manteve-se marxista e leninista com o apoio de entre 400 mil a 500 mil eleitores portugueses. Depois veio a vertigem. A vertigem vestiu a pele de uma opção política chamada "Geringonça". O erro de cálculo político verificou-se avassalador em urna: 236 mil votos e seis deputados eleitos nas legislativas de janeiro. Costa provou que se podia governar à esquerda e que para tal o marxismo do PCP já não era necessário.

A opção de não condenar a brutalidade da invasão russa apenas reforça o divórcio comunista com o país de hoje. Mas não é surpreendente, já em 1968, quando tanques soviéticos a mando de Brejnev entram em Praga para impedir a primavera democrata checa, o PCP foi o único partido comunista europeu que não condenou o belicismo soviético.

O PCP é o mesmo que em 1968, o país é que não.

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